domingo, 16 de agosto de 2009

SABERES E FAZERES


O MAIS IMPORTANTE É O FAZER, PREFIRO SEMPRE A PESQUISA PRÁTICA. NÃO QUE A TEORIZAÇÃO SEJA INVÁLIDA, DE FORMA ALGUMA! MAS É FAZENDO QUE SE APRENDE, É NA PRÁTICA COTIDIANA E NA PESQUISA DO CORPO, DO ESPAÇO E DA VOZ QUE VAMOS LAPIDANDO O MATERIAL. É NA EXPERIÊNCIA DA TROCA MÚTUA ENTRE O ARTISTA E O PÚBLICO QUE VAMOS ELABORANDO NOSSO CAMINHO E A COMUNICAÇÃO FLUI COM MAIS FACILIDADE E BELEZA. ARTISTAS E GRUPOS DEVEM BUSCAR A PRÁTICA. EM MINHA EXPERIÊNCIA COMO ENCENADOR (BASTANTE PEQUENA, DIGA-SE DE PASSAGEM), SEMPRE DEI PRIMAZIA AO FAZER, SEMPRE BUSQUEI COLOCAR A ENCENAÇÃO A SERVIÇO DO ESPETÁCULO E DA COMUNICAÇÃO COM AS PESSOAS. APRENDI ISSO COM O MESTRE PETER BROOK. MAS NÃO QUER DIZER QUE ISSO SEJA FÁCIL, MUITO PELO CONTRÁRIO, É MUITO DIFÍCIL, É UM TERRENO ACIDENTADO, COMPLEXO E PERIGOSO. AS PESSOAS SE ACOSTUMAM COM OS ACERTOS E NÃO ESTÃO PREPARADAS PARA O ERRO, SE É QUE ELES EXISTEM. PODE-SE ERRAR PARA UNS E ACERTAR EM OUTROS. MINHA EXPERIÊNCIA COM TEATRO PODE SER RESUMIDA COM O GRUPUSINA, QUE AJUDEI A FUNDAR COM A ATRIZ E DIRETORA ANA PAULA CARNEIRO. INCLUSIVE TUDO O QUE ESCREVI FOI PARA O GRUPO, VISANDO ENCENAÇÕES PARA AQUELA TRUPE. ESSE TRABALHO DRAMATÚRGICO COM UMA COMPANHIA DE TEATRO ME DEU A POSSIBILIDADE DE COMPREENDER MELHOR O FAZER TEATRAL, ESSA BUSCA POR UMA TROCA FLUENTE, POR UMA COMUNICAÇÃO MAIS EFICIENTE ENTRE PALCO E PLATÉIA A PARTIR DAS POSSOBILIDADES DA COMPANHIA, DE SUAS DIFICULDADES, SUAS QUALIDADES E PECULIARIDADES. MAS ACIMA DE TUDO ME FEZ ENTENDER O QUANTO O PÚBLICO APRECIA O TEATRO E QUANTO AS PESSOAS PRECISAM DO TEATRO. UMA PRÁTICA MAIS SISTEMÁTICA E PENSANDO NO PÚBLICO TALVEZ PRODUZA UMA MUDANÇA DE PARADIGMA NO QUE TANGE AOS PROBLEMAS ENFRENTADOS PELOS ARTISTAS E PELO PÚBLICO, ESTE, A RAZÃO DE SER E EXISTIR DO TEATRO.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

d' AS CRIADAS


MEU MAIS NOVO XODÓ:

INSPIRADO NA OBRA DO DRAMATURGO FRANCÊS JEAN GENET.
ENCENAÇÃO DE UARLEN BECKER
COM DIOGO TEIXEIRA, LÁZARO GOMES E MATHEUS BACELLAR
ASSISTENTE DE DIREÇÃO VICTOR FERRAZ
ASSISTENTES DE PRODUÇÃO ANA PAULA CARNEIRO E VANDA MALTEZ

DE 11 A 15 DE FEVEREIRO (QUARTA A DOMINGO) 20 HORAS NO TEATRO MARTIM GONÇALVES (ESCOLA DE TEATRO DA UFBA: RUA ARAÚJO PINHO, 292, CANELA). ENTRADA FRANCA. APAREÇA!

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

ARTE OU ARKETING?

É SEMPRE A MESMA COISA: QUANDO UM POP STAR SURGE POR ESTAS PLAGAS, É UM PANDEMÔNIO. EXIGE-SE DE TUDO, NÃO SEI QUANTAS TOALHAS, NÃO SEI QUANTOS SEGURANÇAS, O BANHEIRO DEVE SER DESSE JEITO, OS LENÇÓIS DAQUELE JEITO, EXIGE-SE ISSO, EXIGE-SE AQUILO. UM SHOW DA MADONA FOI ADIADO EM BUENOS AIRES. MOTIVO: ATRASO DE MATERIAL DE PALCO. A IMPRENSA COBRIU E REPASSOU COMO UM FATO PITORESCO, TÍPICO MESMO DESSES ARTISTAS. FATOS ALIÁS QUE A MAIORIA ACHA ATÉ BONITO, INTERESSANTE, TRATA COM UM RISINHO DE CANTO DE BOCA. ASSISTA AÍ EMBAIXO A PERFORMANCE DE UM GRANDE ARTISTA QUE NO FINAL DE CONTAS EXIGE MUITO POUCO PARA A SUA GRANDE ARTE. E NÃO É DOS STATES NÃO, É DAQUI DA BAHIA MESMO!


domingo, 7 de dezembro de 2008

açãointerrogaçãointer

Beckett? Tem o Brecht, tem o Beckett, tem o Piscator, tem o Brook, Peter, porque Grotovski, porque Tchekov, porque Piscator, porque Brecht, os simbolistas, porque o texto? Porque o texto! Porque Brecht, porque Tchekov, porque Antonin, porque Artaud, porque Gordon, porque Beckett, porque Batty, porque a escrita coletiva, porque o textocentrismo, porque Brecht, porque Constantin, porque Ronconi, porque Grotovski, porque Tchekov, porque Artaud, porque Stanislaviski, porque Appia, a pia branca de Appia, porque o Living, porque Brecht, porque Artaud, porque Beckett, porque Ronconi, porque Shakespeare! Shakespeare! Porque o Bem, porque Elisabeth, porque Marlowe, porque Brecht, porque Stanislaviski, porque Appia, porque Craig, porque Gordon. Oh! Gordon! Porque Vilar, porque Roubine, roubou Roubine, arrombou Roubine, o Jean-Jacques, o Brecht, o Artaud, o Antonin, o Living, o Vilar, o Gordon, o Craig, o palco naturalista! Ah o palco naturalista. Bem o palco naturalista! Porque o palco naturalista? Bem a frontal frontalidade do frontispício porque a Igreja, o Soleil, o Soleil, o Soleil, o duque, os Sax, os Sax, os Sax, os Sax, os Sax, os Sax, apud, Meiningen, Shakespeare, o bardo, o dardo, o bardo, o dardo, o bardo, o dardo do bardo, o bardo com o dardo no dedo do dardo do bardo, do Shakespeare, porque Grotovski, porque o Vilar, porque o Piscator, o Piscator, o Piscator, o Piscator, o Piscator, piscou, piscando o Piscator, o ato, o ator do ator, nos quatro, de quatro, atroz, porque Brecht porque Artaud, disso, isso, disso, daquilo, daquele, ele, o Shakespeare, o bardo inglês, porque Tchekov, porque Gordon, o dilema, da ema, da ema, do dilema, da ema, da ema, o dilema, o dilema, o dilema, da ema da ema.

sábado, 6 de dezembro de 2008

O NU MASCULINO NA HISTÓRIA DA FOTOGRAFIA

Do científico ao erótico
Foram necessários séculos de evolução e pelo menos cem anos de fotografias para que o nu masculino voltasse a ser encarado com naturalidade nas artes visuais. Fica a pergunta: será um reconhecimento permanente ou mais uma vez o homem tentará cobrir aquilo que teme admirar? Texto de Charles Narloch.
Robert  Mapplethorpe
Robert Mapplethorpe

Sempre que o assunto é o corpo desnudo, no mínimo duas vertentes aquecem uma polêmica tão estranha e contraditória quanto antiga e ultrapassada. Para alguns, nudez significa libertação, uma convivência harmoniosa com a natureza, onde a sexualidade é uma característica inerente à maioria dos seres vivos. Para outros, o corpo nu ainda representa uma ameaça aos padrões morais tradicionais, seja ela espontânea ou representada através das artes.

Nas artes visuais, a nudez passou por momentos de valorização no classicismo e no renascimento, quando milhares de personagens foram esculpidos e pintados sem qualquer vestimenta. Por outro lado, não são poucas as obras que durante os séculos foram alteradas para esconder ou eliminar suas "vergonhas".

Quando a fotografia começou a florescer, entre 1830 e 1840, sua principal função era retratar indivíduos. O que antes era acessível somente aos nobres, tornou-se rapidamente uma mania entre todas as classes sociais. Os fotógrafos perceberam que havia um mercado emergente. Assim, surgiu a comercialização de fotografias que retratavam objetos, casas, ruas, cidades, paisagens e, finalmente, os nus. Para David Leddick, autor do livro The Male Nude (1999), a sociedade machista da época impôs a comercialização exclusiva de fotografias de nus femininos, com fins eróticos disfarçados sob uma ótica artística. Como a maioria dos homens não gostava de se ver nu, também não questionava se alguma mulher poderia admirar a beleza artística contida em um nu masculino. Muito menos se havia homens que pudessem admirá-los dessa forma (e certamente havia!). Na falocracia, o dinheiro representava poder e um homem nu jamais poderia exibir seu status material numa fotografia. Já às mulheres, que diferença fazia estarem nuas ou vestidas numa fotografia, se cabia a elas a função de servir aos falocratas e garantir seus descendentes?

Por todas estas circunstâncias, os primeiros nus masculinos que se têm notícia surgiram apenas em 1872, com fins científicos. Nos Estados Unidos, o britânico Eadweard Muybridge uniu fotografias individuais, captadas separadamente, tornando visíveis as fases da locomoção, utilizando como modelos animais domésticos, além de mulheres e homens nus. Nestas séries, pode-se observar claramente que nenhum modelo masculino aparenta estar perturbado com a situação incomum àquela época. Muito pelo contrário. Também é notável que os modelos adotados provavelmente não tenham sido escolhidos ao acaso, mas dentre aqueles que apresentavam os corpos mais atraentes. Mais tarde, este fato acabou levantando suspeitas de que o trabalho de Muybridge deixava explícitas suas predileções pessoais, o que não causa nenhuma estranheza nos dias atuais. Seus estudos foram publicados somente em 1887 e conquistaram uma comedida respeitabilidade científica, já que os modelos nus, principalmente os masculinos, representavam um escândalo.

A divulgação do escândalo de Muybridge serviu de estímulo a outros artistas, que não buscaram qualquer justificativa científica para fotografar ou utilizar fotografias de nus masculinos. Thomas Eakins, considerado o maior pintor norte-americano do século 19, utilizou os trabalhos de Muybridge na composição de suas pinturas, mas foi forçado a renunciar ao cargo de professor da Academia de Belas Artes da Pensilvânia, por trabalhar com modelos masculinos nus em uma turma mista. Na Itália, os alemães Barão de von Gloeden e seu primo Guglielmo Pluschow fotografaram jovens rapazes simulando cenas da Grécia Antiga. Os modelos aparecem usando turbantes e sandálias, quase sempre expondo naturalmente suas genitálias. Como não tinham objetivo de servir de guia para pinturas, essas fotografias foram consideradas os primeiros nus masculinos com objetivo artístico puro e simples.

É óbvio que as fotografias de von Gloeden e Pluschow venderam muito, principalmente para turistas homens, em sua maioria homossexuais. Era inevitável que o nu artístico, nas mãos de uma sociedade hedonista, não fosse consumido por seu apelo erótico, pois tudo depende do olhar individual de quem o vê. Assim, esses e outros artistas publicaram inúmeros catálogos de nus masculinos que se tornaram um grande negócio até a Primeira Guerra Mundial.

No início do século 20, astros de cinema e da dança foram fotografados nus ou semi-nus sem que tivessem concordado com isso. Rudolph Valentino, Ramon Navarro e Nijinsky despertavam um enorme interesse entre homens e mulheres. Até a Segunda Guerra, a reprodução fotográfica de belos físicos masculinos, não necessariamente nus, se tornou tão comum que o hábito do culto ao corpo cresceu rapidamente. Esse comportamento contribuiu para o surgimento das primeiras revistas destinadas aos fisiculturistas. Porém, a venda destas revistas para homens e mulheres que não freqüentavam academias de ginástica, logo fez com que as fotos se tornassem cada vez mais sensuais e eróticas. Não é difícil imaginar que este novo apelo dos nus ou semi-nus masculinos logo os deixasse sob a mira de governos, igreja e conservadores em geral. É por isso que a partir desse período as revistas de físico tornaram-se mais amenas e os nus masculinos restritos ao comércio ilegal.

A circulação paralela e ilegal do nu artístico masculino perdurou em muitos países até o final da década de 60. Em 1968, a revista americana Grecian Guild Pictorial venceu uma ação na Suprema Corte dos Estados Unidos, que finalmente reconheceu essa modalidade de fotografia como arte. A profusão de revistas explorando o nu masculino, de apelo artístico, erótico ou mesmo pornográfico, cresceu vertiginosamente desde então.

Nas galerias, museus e espaços públicos, a aceitação do nu masculino na fotografia foi ainda mais lenta. Em 1978, uma exposição dedicada ao tema, na Marcuse Pfeifer Gallery, em Nova York, foi praticamente ignorada pelos críticos homens. Eles ainda viam o "nu masculino como um território restrito aos homossexuais e às feministas que queriam ver os homens em situação reduzida e vulnerável". O que mais incomodava os críticos eram os pênis à mostra, esse símbolo mítico do questionável poder masculino, reconhecidamente frágil e em franca decadência. Porém, como afirma David Leddick em seu livro, nesta época a maré já estava contra estes críticos. Robert Mapplethorpe entrou nos anos 80 mostrando fotografias de homens nus, acertando em cheio o gosto popular e obtendo o reconhecimento da crítica internacional. De lá para cá, o nu masculino não causou mais grandes polêmicas nos países desenvolvidos.

Foram necessários séculos de evolução e pelo menos cem anos de fotografias para que o nu masculino voltasse a ser encarado com naturalidade nas artes visuais. Fica a pergunta: será um reconhecimento permanente ou mais uma vez o homem tentará cobrir aquilo que teme admirar?

A Notícia, 7 de outubro de 2001.

Charles Narloch

20/05/2001

Originalmente postado em:

www.netprocesso.art.bR

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

HOJE


HOJE NADA MAIS IMPORTA. TUDO IMPORTA. TUDO É MATERIAL PARA CELEBRIDADE E TUDO É MATERIAL PARA DESDÉM. NÃO SEI (É MELHOR QUE NÃO SABEMOS) OS LIMITES DE MAIS NADA, DA ARTE, DO BELO, DO TERROR E DO HORROR; DO CÔMICO E DO TRÁGICO; SEI DA NÃO SURPRESA, SEI AINDA DAS CORES, SE É QUE SE PODE AFIRMAR QUE O VERMELHO É VERMELHO E NÃO UM GRAU OU TOM DE ROSA. NO MUNDO DO TUDO PODE AO MESMO TEMPO NADA PODE. NÃO SE PODE MAIS SER, POSTO QUE ESTAMOS PERDIDOS E PULVERIZADOS ONDE NÃO RESTA MAIS NENHUMA CERTEZA, SÓ AS DÚVIDAS.

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

CINCO HISTÓRIAS


DOMINGO, 23, 14:30 NO CRUZEIRO DE SÃO FRANCISCO NO CENTRO HISTÓRICO DE SALVADOR, CARA-A-CARA COM O TERREIRO DE JESUS E OUTRAS FIGURAS CELESTIAIS, APRESENTAREMOS CINCO DE HISTÓRIAS DE CUÍCA DE SANTO AMARO OU ELE, O TAL! AO AR LIVRE! NA RUA! APAREÇAM!

CICLO DE LEITURAS DRAMÁTICAS DA UFBA


FUI CONVIDADO PARA DIRIGIR A LEITURA DE UM TEXTO NO CICLO DE LEITURAS DRAMÁTICAS DA UFBA. PRÓXIMA SEGUNDA, 18:30 NO TEATRO MARTIM GONÇALVES. APAREÇAM.


sexta-feira, 26 de setembro de 2008

PAOLA OPALA


Paola Opala, personagem inventada por mim acabou de me informar que a Maísa, apresentadora mirim do SBTetas é na verdade um robô. Paola ficou sabendo de fontes fidedignas que o Santos, Sílvio, inventou, na época da inauguração do SBesTeira, uma maneira de reproduzir clones da robô-mãe, Hebe Camargo. Assim, Ana Maria Braga saiu da xoxota de Hebe; Xuxa saiu da xereca de Ana Maria Braga; Angélica teria vindo da xana de Xuxa; Sacha saiu não da xavasca de Xuxa, mas da de Angélica; finalmente a Maísa teria saído de um peido da Sacha. Faustão ninguém sabe de onde veio; Guggu, outra loira, teria vindo do inferno católico, trazido pelo diabo católico, aquele de chifre e todo pintado de vermelho e ecologicamente incorreto, já que fede a enxofre. Gugu conseguiu reproduzir outros robôs infernais inseminando uma enfermeira que não se sabe de onde veio. Me deixe viu, Opala!

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

CADÊ?





Melhor que a harmonia, a grandiosidade, a tecnologia, a tradição e tecnologia foi ouvir o Galvão Bueno e sua turma da TV Globo narrando e comentando a abertura da Olimpíada na China. Certa altura o falastrão locutor nos informou que "alfa é A e beta é B"! E com um tom de despeito, desdém e falta de não sei o quê disse que os chineses tem uma mania de exagero, que batizaram de forma pretensiosa um imenso e imponente prédio ao lado do estádio-ninho com o nome de uma deusa que se lembro bem, é a deusa da criação. E insistiram em dizer que os chineses sempre dizem que seu país foi o terceiro e passear pelo espaço, que dizem isso com orgulho. O que há de ruim em se valorizar? É boa a nossa altíssima baixa estima? Se não me engano lá é até crime ser alanlfabeto. E aqui? Vamos nos orgulhar de quê? Ah, já sei, em saber que a Patrícia Pilar é realmente a vilã e que o povo prefere o maniquísmo mais tolo todas as noites. Ou que Leo Kret (?) tem enormes chances de se tornar vereadora. Massa né? Aí lembrei do Caetano: Sejamos imperialistas! Cadê?

terça-feira, 15 de julho de 2008

FONSECA


GENET


PLAY

Esses dois caras aí em cima têm me consumido. Rubem Fonseca foi na minha pré-formatura, se é que é palavra composta, o termo. "À maneira de Godard", diálogos caudalosos, personagens complexas ensandecidas, urbanas, fóbicas. Não sei se venci uma batalha ao encenar aquela obra. Venci meu medo de realmente ENCENAR uma obra e não apenas dirigi-la. Agora vem o Genet, Jean com seus jogos deliciosamente terríveis, os duplos, a representação da representação. "As Criadas". Inúmeros, múltiplos caminhos. Agora não paro de pensar nisso. No jogo. Na cena. Nas vozes. No que dizer às pessoas que irão assistir e no que dizer a mim mesmo e aos atores. Ah, foda-se!

quinta-feira, 29 de maio de 2008

O CENTRO DO UNIVERSO


Sempre dizem que sou egocêntrico. Tanto mais: faço pose de artista-gênio incompreendido. Artista? Gênio? Sei não. Mas o egocêntrico pensa que é o centro de tudo, que tudo gira em torno de sua existência. Eu tenho consciência que nada gira ao meu redor nem por causa da minha existência. Mas eu gostaria que fosse, gostaria que o mundo girasse ao meu redor. Infelizmente não é assim. Outra coisa: não se pode expressar opiniões. Defender idéias, debater de forma democrática um assunto e tudo ficar numa boa, de forma sadia. Geralmente quando defendo uma idéia as pessoas tomam como uma facada no peito, uma ofensa pessoal. Daí eu termino como egocêntrico, arrogante, metido, frio, calculista, metódico, passivo-agressivo e tantos outros adjetivos nada simpáticos. Quer um conselho? Seja como o homem da cabela de papelão, do João do Rio, cuja verdade era a dos outros, nunca a dele próprio. Cérebros eletrônicos. Alienari. Seja como todo mundo. Não diga nada, cale-se, bajule. A pudicícia agrada a todos. Seja mais cristão, no mal sentido, digo, no sentido que agrada a todos. Nada de assuntos polêmicos. Não há nada mais terrível hoje em dia do que expressar sua opinião sobre assuntos polêmicos como aborto, união civil de pessoas do mesmo sexo, eutanásia, liberação da maconha e tantos outros. Admita o mundo como ele é, veja sempre o lado positivo, trabalhe para que todos se enquadrem nesse perfil de mundo e seja feliz.

CRER PRA VER



É preciso acreditar. Acreditar nas pessoas e no mundo. Acreditar que o próximo é alguém especial, melhor que eu. Ou que poderá melhorar, evoluir significativamente na escala humana. Progredir. É preciso acreditar num futuro melhor, que poderemos reverter o quadro de degradação que flagela a sociedade atual. É preciso acreditar. Que as pessoas darão o melhor de si, que serão honestas, que honrarão suas palavras, que cumprirão os compromissos, que se esforçarão. E que num futuro bem próximo...

quarta-feira, 28 de maio de 2008

IMAGENS DA TERRA DA ALEGRIA


Vou falar com papai-(Geddel) Noel pra ver o que ele pode fazer. Mas em nome de Jesus tudo será resolvido.

Velhinho caquético falando com orgulho: "Ah, meu filho, eu trabalho desde os 10 anos de idade!"

"Futebol é uma caixinha de surpresas"
Agora a gente sobe!

A CIDADE DOS CARALHOS AMBULANTES


Assim é Salvador, a cidade onde nasci e vivo.Como o título acima. Não vou embora daqui porque sou sádico e masoquista. Aliás preciso experimentar um pouco de sadismo comigo mesmo por causa da peça que irei montar para minha formatura, um texto do Marquês de Sade. Então continuo caminhando pelas ruas sujas e fedidas de São Salvador da Bahia. De tudo se vê, como dizia Cuíca de Santo Amaro. E de tudo se ouve também, porque aqui as pessoas falam incrivelmente alto. De suas vidas e da vida dos outros também. Aliás primeiro da vida dos outros!

Em qualquer lugar que se vá pode-se escutar de tudo. As pessoas têm opinião e teoria para tudo, de política a medicina, de moda a entretenimento. Aliás nesse último quesito a TV ocupa o topo da cadeia "assuntológica". Salvador, Bahia e Vitória. Tudo a ver. Somente uma cidade alegórica como a nossa poderia abrigar times tão risíveis como Bahia e Vitória. E ainda têm coragem de juntar os dois numa mesma competição! Mas daí talvez resulte uma boa análise, um prato cheio para os sociólogos de plantão. Num acontecimento "desportivo" como esse pode-se ver desde o tráfico de drogas à exploração do trabalho infantil; da prostituição infantil aos atos de incivilidade do povo daqui. Tudo isso debaixo das barbas da polícia! Alguém aí sabe quem é o secretário de (in)segurança pública? Aliás Salvador ficou ainda mais insegura com os 14 potenciais candidatos à sucessão do palácio Thomé de Souza. Veja como Salvador é incrível. Quatorze pessoas querem descascar o abacaxi! Abacaxi cuja casca ficou ainda mais grossa e espinhenta com a administração de João Henrique, o mamulengo de Geddel.


Caminhando sessenta minutos pelas ruas de Salvador, pode-se ver como as pessoas avançam com suas casas pelas calçadas, fazem rampas, constróem escadas mirabolantes num contorcionismo ímpar para acessar o puxadinho do andar de cima. Em muitas ruas você disputa com os carros em movimento e os estacionados nas calçadas; ou disputa com os carros em desabalada correria com as montanhas de lixo e entulho nas calçadas.

Qualquer pessoa é suspeita. Se for preto então, corra!, assim manda nosso ancestral e podre preconceito de cor. Essa a maior das tragédias, um povo ter sido lançado na marginalidade sistemática durante os séculos. O centro da cidade é dos camelôs. DVD e CD pirata são comercializados aos borbotões. Eu apóio. Tem DVD com quatro filmes por apenas 3 reais! Acho terrível disputar um tantinho de chão com as mercadorias. "Ah, mas eles são desempregados, o povo tem de trabalhar", dizem alguns. Concordo também. Mas e o direito de caminhar livremente nas ruas dos outros igualmente trabalhadores?

Somente numa cidade como a nossa pode-se assistir a uma intervenção cômica do prefeito na televisão dizendo, feliz, que se encontrou com o presidente Lula e que o mesmo prometeu que não vai mais interromper o repasse de verbas para as obras e que ele (o prefeito) promete entregar ainda em 2008 a primeira etapa do metrô. Que metrô? Primeira etapa? Ah, entendi, foi apenas uma intervenção cômica de João. Devia ir trabalhar na Porra Total, o pior programa "humorístico" da TV. Engraçado o prefeito aparecer para dizer que vai entregar o metrô no ano eleitoral. Aposto que a inauguração será bem no estilo Odorico Paraguaçu, personagem de Dias Gomes. Aposto também que a inauguração será uma semana antes do peito, digo do pleito municipal.


Ainda bem que o prefeito é evangélico. Ah, talvez seja por isso que tenha crescido tanto o número de templos nos bairros. Cada lojinha agora vira uma igreja evangélica pop. Como disse Dalton Trevisan, "as sete trombetas do apocalispe tocam do lado de minha casa". Só que o som agora é pop. O pop não poupa ninguém. Tomar no cu deve ser pop, por isso que o que mais se ouve nas ruas é isso: vá tomá ni seu cu! É muito cu e muito caralho. Créu combina com Salvador. Lula pretende fazer uma moeda única para circular pelos países da América do Sul. Poderia ser o Créu, como eu vi em um blog. Poderiam testar primeiro em Salvador, a cidade alegórica. Tem tudo a ver créu com tomar no cu. Eis um quadro surrealista: "A cidade dos caralhos ambulantes". Agora vou sair e continuar exercendo o meu auto-sadismo.

segunda-feira, 26 de maio de 2008

TÉDIO TEDIOSO


Não há nada pior que o tédio. A palavra em si mesma causa tédio, um leve "muxoxo", se é que se escreve assim. Me causa tédio ir ao dicionário pesquisar a correta grafia. Vou ao teatro e olho sempre ao meu redor. Busco me distanciar do espetáculo para tentar captar o sanguinolento tédio atacando os espectadores. A coisa é tão tediosa que muitos aplaudem e riem por puro tédio. Pura obrigação. Nada mais causa mais nada! Ouvi dizer que o homem atual só reagia a estímulos externos. Agora nem isso. Tudo causa tédio. Causa tédio saber da morte de Isabella; causa tédio saber que o Brasil não consegue cuidar da Amazônia; causa tédio saber que uma nova novela vem aí; causa tédio saber que amanhã iremos acordar e começar tudo de novo. E sobretudo causa tédio escrever e até mesmo ler esse artigo. O tédio é uma praga que devemos combater com o mais potente dos pesticidas. Talvez a criatividade e o trabalho e bons pensamentos dêem cabo do tédio. Penso constantemente que porra podemos fazer pelo teatro para que ele seja cada vez menos tedioso. Creio que será uma tarefa árdua e constantante, um duro exercício para toda a vida. Tentarei não desistir, prometo. A reforma da Sala 5 só se concluirá dia 4 de junho. Mais uma vez minha peça de pré-formatura é adiada. Agora me resta remanejar os ensaios, refazer os planos de ensaios, contactar os atores, buscar novos estímulos, procurar Bira para saber quando terei pautas disponíveis. Que tédio!

quinta-feira, 22 de maio de 2008

PARTEJANDO



Mais uma vez estou envolvido com coisas do teatro. Tento me distanciar, fazer outra coisa mas isso parece não ter jeito. Agora é por obrigação mesmo. Coisas da faculdade: pré-formatura. Montar uma peça inteira, de verdade! Sem grana! Implorando por atores. Tento sempre me apaixonar e não abrir concessões. Se é assim prefiro fazer o que gosto e o que quero. Tento falar de agora olhando pra frente. Chamei o Grupusina e atores convidados para juntos encenarmos "À MANEIRA DE GODARD", projeto inspirado em texto do escritor Rubem Fonseca. Nessa tarefa o professor Paulo Dourado me orienta com a encenação e Cleise Mendes com as questões dramatúrgicas. Maravilha! Mas a peça tinha que ser apresentada até dezembro de 2007! De lá pra cá muita água correu. Quinze atores passaram pelo processo. Onze só no personagem Romeu, um dos protagonistas. Cleise Mendes diz que eu escolhi um texto difícil, complexo e sofisticado, uma excelente escolha, mas que os atores no fundo têm medo. É que no original as personagens fazem um estranho jogo sexual para chegar às vias de fato. E tudo isso é dito e mostrado no texto original (publicado em forma de texto para teatro no livro de contos de 1998 pela editora Companhia das Letras) de forma clara, seca e fria. Os atores se borram de medo. Talvez não confiem em mim, na proposta, no texto, em minha capacidade de encenar uma peça. ou tudo isso e mais um pouco. Creio que muitos atores nem sabem o que fazem no teatro. Nem sabem mais o que é teatro e sua função na sociedade enquanto arte. Nem o que é arte! Muito menos o que é encenar uma peça, uma vez que deixo bem, bem claro que sempre pretendo fazer um jogo, descobrir imagens e formas de dizer e mostrar as coisas não pelo que está aparente, na superfície, mas pelo que está por baixo, pelo que pode ser criado e descoberto. Nunca entregar tudo de bandeja para o espectador. No caso, se na NOSSA descoberta, se na NOSSA encenação acharmos por bem expor picas e bucetas e fizéssemos isso bem feito, crível e sem medo, assim seria. Se não, encontraríamos outra maneira. Mas prefiro acreditar que os que abandoram o barco não compreenderam isso, tiveram medo ou simplesmente não estão mesmo afim de parir uma descoberta. Paciência. Agradeço aos que ficaram e lamento pelos que saíram. Se, ódio, raiva ou ressentimentos, apenas um vazio e um medo. Vazio por não entender mesmo a cabeça de certas pessoas. Medo por achar que muita gente que faz teatro não sabe o que está fazendo. Principalmente atores, que dizem ser o elemento principal do teatro. Fico com medo porque vejo que poucos ousam criar. Sempre digo assim em uma cena mais complicada: vamos criar agora, vamos descobrir, vamos fazendo, façam aí, criem aí. Percebo muita dificuldade. O Paulo Dourado disse que os atores não dão nada (não criam ) e quando dão a gente deve pegar imediatamente. Tenho medo de que isso seja verdade. Dentro dessas dificuldades acabamos por encontrar muita coisa interessante. Coisas que realmente estavam por baixo! Investi pesado no JOGO enquanto possibilidade e signo que permeia toda a peça, bem como o elemento sexual do original de Fonseca. Deixar claro como é esse jogo e que estamos jogando todo o tempo. A estréia estava prevista para 27 de maio, mas a Sala 5 entrou em reforma. A diretora Eliene Benício me dissera que estaria pronta antes do feriado (que é hoje). Ontem estive por lá final da tarde e a sala não estava pronta e não havia ninguém trabalhando lá. Como estamos no Brasil e na Bahia, terra da alegria, amanhã, sexta-feira-enforcada ninguém vai meter mão na massa. Só segunda feira. A peça estrearia na terça, eu teria que ensaiar no local pelo menos domingo e segunda. Impossível. Melhor eu aquetar o facho e esperar a minha vez. Enquanto isso vou arrematando imagens, idéias e visões para a peça de formatura. Como eu primo por escolhas difíceis, selecionei um texto do Marquês de Sade, investir em sua filosofia e erotismo. Os atores que convidei nunca ou pouco ouviram falar no tal marquês. Oh, e agora, quem poderá me defender?












quarta-feira, 19 de março de 2008

DE 4 NO ATO



Faço parte da equipe que organiza o projeto Ato de 4 da Escola de Teatro da UFBA. Fiquei curioso em saber como tudo aquilo se processa. Participei duas vezes do Ato: a primeira quando não era da Escola, em 2003, com uma cena de Hamlet (a cena dos atores) de Shakespeare; a segunda ano passado com uma cena de O Balcão, do francês Jean Genet. Eu via aquela correria, atrasos, descontentamentos, queixas e críticas as mais diversas. Sempre achei a Sala 5 muito atraente e charmosa. Ter um espaço que comporta 70 pessoas com um espaço livre para se fazer qualquer coisa, alguns refletores, aparelho de som e público garantido e tudo isso de graça! E mais: alguns apresentaram (e apresentam) peças inteiras, que muitas vezes são grandes realizações e fazem sucesso fora da Escola sem pagar pauta! Sei que muitos se queixam da sujeira, do ar-condicionado que quebra muitas vezes, da falta de manutenção. Mas nunca ouvi alguém propor um mutirão para limpar o local, dar uma manutenção, uma cota de doação material e do próprio suor! Isso pode ter ocorrido mas eu nunca vi. Longe de mim tirar conclusões precipitadas ou julgamentos errôneos. Mas voltando ao Ato de 4, creio que o projeto não carece de nada. Os alunos atores e principalmente diretores é que devem pensar o teatro de forma mais ambiciosa e ousada em todas as suas possibilidades. Enquanto ciência e instrumento político de modificação do ser humano e da sociedade. Será que o "politicamente correto" em seu mal sentido está tomando conta de tudo? A juventude tem medo de quê? O que se quer discutir? atualmente? O que você gostaria de dizer para a sua comunidade (comunidade real, do bairro, da cidade e da própria Escola de Teatro, não as comunidades virtuais e tolas em sua maioria do famigerado Orkut)? E a pura e simples diversão, item essencial ao teatro, segundo os grandes gênios dessa arte milenar? E o compromisso e a seriedade com as coisas? Não se pode fazer teatro como você assiste TV na sala de sua casa, inteiramente a vontade! Ou pode? Alguns, da turma da relativização das coisas, dirão que pode, que tudo é relativo. Mas relativizar demais não é ficar sobre o muro, carecer de opinião, vestir alguma camisa, defender uma idéia? Ou será que ficar em cima do muro é defender uma idéia?

O que tenho visto é uma mornidão excessiva! Sempre a velha tentativa de acertar, mas sem levar em consideração a platéia. O público é o principal alvo de todo e qualquer espetáculo de teatro. Sem ele não existe teatro, apenas uma punheta egoísta e solipsista. Aquele espaço da Sala 5 é dos alunos, e o Ato de 4 um projeto de experimentação da inúmeras possibilidade contidas na cena. E a velha e boa dramaturgia? Jaz esquecida em algum lugar? E a nova dramaturgia, tripartida, sem fórmulas e na qual tudo pode naquele que a fortalece, será que já perdeu o gás? Creio que não! Todos em busca de fórmulas prontas. Ninguém quer suar a camisa com pesquisa, ensaios exaustivos, um olhar profundo sobre a sociedade que nos cerca e sobre o público da Escola, da Sala 5 e do Ato de 4! Vi muita coisa bacana no Ato de 4; também vi muita cena equivocada. Mas isso faz parte do projeto que se quer experimental, não para projetos acabados e obras primas! Um dos maiores equívocos é fazer uma cena legal, ser aplaudido (a) e pensar que é a Sarah Benhardt ou o Paulo Autran. Até porque eles já morreram; e o Paulo Autran não pensava que era o Paaaaaulo Autran! Façamos cenas de nossas montagens no Ato, como forma de teste, de ensaio aberto. Não é assim que fa o Peter Brook, um dos maiores encenadores que o teatro já viu? Quantos professores inscreveram cenas no projeto? É proibido? Gritemos aos diretores de fora da Escola. Que tal colocar uma cena no Ato? Enobrecer a proposta com o brilho de seu nome e de sua história? Vamos perguntar se a Aninha Franco não gostaria de escrever uma cena para alguém apresentar no Ato? Vamos indagar o Fernando Guerreiro se ele não gostaria de disponibilizar uma cena de suas deliciosas comédias para o Ato? E a Companhia de Teatro dos Novos? Não poderiam inscrever uma cena? Que tal um mês inteirinho com cenas do módulo I de direção e interpretação como forma de avaliação final sob a coordenação do Marfuz e da Iami? Será que estou sendo ingênuo? Ou o nosso tempo é mesmo o da indiferença e da exacerbada individualidade? Ao invés de apenas criticar, façamos algo para erguer, resgatar, melhorar, desatar os nós da preguiça e da ignorância mental, artística e cidadã.

quarta-feira, 12 de março de 2008

Nós vai


Ontem a noite, caminhando para casa, escutei sem querer a seguinte conversa entre dois alunos de uma escola pública estadual:

Ela: A professora dizendo que a gente deve aprender a falar português correto. Quem fala português correto são os portugueses de Portugal!

Ele: É, a gente tem que falar é o baianês que é essa língua cheia de maluquice que a gente inventa.

É o país do futuro!

sexta-feira, 7 de março de 2008

Salvador, ano 2099



Por todo canto a decadência: lixo por toda parte, mendigos, viciados em crack, prostitutas importunando turistas, vendedores e pedintes de toda sorte perturbando os passageiros dos ônibus, desemprego, transporte ultra-precário, obras paradas. Como diz Caetano na bela canção "Fora da ordem": aqui tudo parece que é ainda construção e já é ruína. Os dados estão lançados. A sorte é dos ricos e poderosos. Dizem que quem manda na capital baiana é Geddel. Dizem que é a mulher do prefeito. Prefeitura de participação popular. Você foi consultado e ouvido sobre o Salvador Card? Nem eu. E sobre o PDDU, você foi? Nem eu. Credo-em-cruz, vai de REDA Satanás. O prefeito evangélico pediu a bênção de Iemanjá. Coitada, meter o rabo escamoso nesse angu de caroço. Ah, vamos fazer um tour de charrete como nos tempos de outrora? É um negro que comanda os cavalos, como antigamente. Mas nada morena sestrosa nas ruas, ou baiana com tabuleiro na cabeça. Foram substituídas por craqueleiros e vendedores ambulantes vendendo DVD piratinha. Você anda pelas calçadas em Salvador? Nem eu. Os camelôs tomam conta. E os carros também. Dos camelôs vão dizer que os caras precisam trabalhar. Mas quem igualmente trabalha, dá duro todos os dias deve andar no meio das ruas, disputando com os carros? Carro conduz ao tema trânsito. Esse nem se fala. É uma guerra. Povo mal-educado. Bárbaros. Éramos apenas a cidade mais racista do mundo, agora somos a mais feia e mais suja. E os homicídos? Polícia negra matando os negros da periferia. Traficante matando os manos. Operação abafa! Falar de artes em Salvador é uma vergonha. Não existe gestão. A secretaria de educação e cultura é só de educação. Funciona no antigo solar em que morava o Castro Alves! Pois é, pois é, pois é! O teatro municipal que é o Gregório de Matos, idealizado por Lina Bo Bardi está jogado às traças. Quem o gerencia é a Fundação Gregório de Matos, que é na verdade a secretaria de cultura de Salvador. Dizem que seu orçamento anual é de apenas R$ 250.000! É mole? Uma cidades com tantos escritores, poetas, atores, cantores, dançarinos, pintores e escultores. Todos de cuia na mão! Ah, mas nós temos o carnaval, quem precisa reclamar se ano que vem tem carnaval? Momo light. Abadá: tradução: short e camiseta. Só falta a sandália havaiana! Você já foi no PAN de Roma, nêga? Não? Então vá! Tomara que a saúde da senhora sua mãe esteja tinindo! E o prefeito quer mais um mandato. Tomara que consiga. Todo mundo tem um João!

VIDA. BANDIDA

Que vida mais bandida. Sempre pregando surpresas. A todo momento me puxando o tapete, seja para me jogar no chão ou para me lançar para o alto. Fico com esse sentimento, misto de alegria e surpresa; decepção e raiva. Fui pego pelo rabo, aturdido, sacudido com sentimentos, notícias e reações as mais variadas nessas últimas semanas. O teatro me consome e me renova. A vida em família é tediosa, vibrante e enriquecedora. Novos amigos e colegas de trabalho fazem parte do lado bom. Assim como a convivência harmoniosa e o ombro/peito amigo da companheira. Sinto agora a soma das compensações. Continuo aprendendo e me embasbacando com as surpresas da vida bandida. Tento ser eu: irônico, chistoso (como disse um professor de dramaturgia, o Marcos Barbosa), contraditório, artista, agressivo, passivo, ativo, viril, bi, inquieto, preguiçoso, medroso e... Enfim, com qualidades e defeitos inerentes a qualquer ser que se diz humano. E assim vou levando.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

CELIBATO E TEMAS PERIFÉRICOS


Fiquei sabendo que padres brasileiros enviaram documento ao Vaticano pedindo o fim do celibato. Proponho outra coisa: enviem um documento solicitando o fim total, completo e absoluto da própria Igreja Católica por todos os séculos, para todo o sempre. Aleluia!

E NA TERRA DO BANHO DE PIPOCA...



... vem aí o banho de asfalto!












E sabe-se lá Deus mais o quê!


sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Página branca (poema de rima pobre)

Nada para registrar na página branca além da saudade
nada para impregnar na página branca além da dor
nada para publicar na página branca que não a lembraça do doce
e do amargor das ruas sujas e da corrupção mais descarada
ou da impunidade mais imoral
nessa página branca após o delirante carnaval.

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

BBB e as bbbesteiras


Sobre o chamado show de realidade que a TV Globo apresenta faz oito anos, muita coisa já se disse. Até sociólogos se debruçaram para estudar e tentar entender o fenômeno. Muitos intelectuais e pseudos e outros metidos a besta como eu, também escreveram e escrevem sobre o assunto.

Particularmente me irrita a enxurrada de críticas ao programa. Muitos dizem que é tolo, ridículo, explora as pessoas. Eu fço parte dos que dizem que é uma atração tola feita para tolos. Mas também não culpo a emissora carioca por isso. Trata-se de uma empresa dentro de um esquema capitalista, visando portanto o lucro. Não existe dentro do mundo do capital lugar para titubear, pensar no social apenas, no próximo. A ética cristã não combina com o lucro a todo custo. O que se quer e deve é ganhar dinheiro. Oferecer ao supersticioso e curioso povo brasileiro a oportunidade de perscrutar a vida alheia é um negócio lucrativo. Na minha opinião o programa revela algo escandaloso: a sociedade brasileira se pretende avançada em todos os aspectos, mas na maioria deles é ainda medieval, apegada a superstições, credos religiosos, pudicícia cristã. Isso sem contar com nossas maiores tragédias: o analfabetismo, inclusive o funcional, o preconceito, a exclusão social, a falta de saneamento básico, a crescente sujeira das cidades grandes, o precário sistema de saúde pública. Nossa sociedade se pretende cosmopolita, integrada ao mundo contemporâneo e globalizado, mas está mesmo fincada a conceitos tolos. Se o programa fosse mesmo um show de realidade, para mim pelo menos seria muito atraente, algo como o que vi na Internet dos programas holandeses e ingleses. As coisas escancaradas. Vi até uma das participantes amarrando um lacinho no pau de um colega da casa! Mas aqui, a emissora conhece bem nosso perfil. As coisas têm de ser maquiadas, limpas e amparadas por uma dramaturgia, isso sem contar com as famosas edições. Tudo para parecer mais um folhetim melodramático. E no final das contas é isso que a atração se transforma! Machos alfa, crises nervosas, casal romântico e apaixonado, intrigas, o vilão e a mocinha; o pobre coitado semi-analfabeto, a ingênua interiorana com forte sotaque e gostosíssima, para deleite dos adolescentes (e outros marmanjos) punheteiros. Tudo limpo, tudo clean, festas de arromba. A última droga permitida é a droga oficial: o álcool. Isso para gozo dos telespectadores, pois a bebedeira será motivo para confissões, verdades que desde o começo estavam adormecidas. Os mais animados podem ver algum lance mais erótico: a calcinha de uma bbb, os pentelhos de outro bbb. Nunca vi um capítulo (se é que se pode chamar assim) do "show de realidade" inventada, quanto mais uma edição inteira. Nunca liguei para votar nem acessei a rede para espiar. Melhor espiar os vizinhos. São mais reais, sujos e interessantes. Não são celebridades instantâneas, mas são mais críveis. Aliás, por onde a fauna das edições anteriores? Nossos heróis como diz o apresentador?

A emissora está certíssima, lucra e lucra muito com a atração anual! Delicioso é quando tentam dar uma dimensão "humana e honrada" aos participantes, tentando discutir com eles temas que afetam o brio do povo e que são de grande relevância para a nação, como faz Faustão em sua atração dominical. Depois tem aquela senhora com o papagaio todas as manhãs com suas mensagens igualmente tolas. Não falem mal do BBB e nem da Globo. O programa é tolo, vazio e previsível, mas se o povo dá audiência, é preciso ganhar dinheiro com isso. E alguns momentos de fama, que hoje em dia importa mais que a sabedoria e o conhecimento.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

Conselhos de seu Josefo

Seu Josefo é um velhinho que mora ao lado de minha casa. Ele possui uma lista de dicas para o Governo, que segundo ele vai botar o Brasil "no eixo":
Políticos que meteram a mão no dinheiro público: morte por enforcamento com direito a espetáculo em estádio de futebol. Ou então: espancamento. Os espancadores seriam populares indignados e pais de família honestos, inclusive ele, seu Josefo.
Estupro: se ficou comprovado pelo esperma, amputação do membro pecaminoso e sujo e posterior morte por choque elétrico. Se o estuprador usou camisinha e a única acusação é a queixa da vítima, a pena deve ser surra em praça pública, sendo o corpo salgado após as chibatadas.
Acidente de trânsito por embriaguez: se o pinguço morreu, não resta muito a fazer. Se não, levá-lo preso desde a maca por quarenta anos, sem direito a recorrer, além da apreensão do veículo, se o mesmo estiver em codição para tal. Acidente sem vítimas fatais, pena de vinte anos sem direito a visita íntima´.
Preso que cumpre qualquer tipo de pena por qualquer crime: serviços forçados diários, limpeza de ruas e surras mensais para fazer o delinquente lembrar-se de seu erro e refletir sobre o mesmo.

Para refletir durante o novo ano

Semanas atrás eu vinha de um ensaio caminhando pela Avenida Garibaldi, quando uma senhora perguntou a mim e à minha companheira se iríamos em direção à Avenida Vasco da Gama. Após a resposta afirmativa, a senhora, simples em seu caminhar e maneira de se vestir e com a cabeça baixa - a meu ver signo de uma classe achacada, explorada e excluída -, permaneceu calada durante a caminhada, sussurrando apenas um "graças a Deus" umas duas vezes. Isso despertou nosso interesse. Perguntamos se ela estava amedrontada com a cidade ou com a noite na cidade. Então ela contou-nos sua história. Para mim uma verdadeira tragédia: era catadora de mariscos da Ilha de Maré, ilha que de forma absurdamente baiana faz parte de Salvador, e estava na cidade de favor, morando num casebre pertencente a uma catadora de papelão que ela mal conhecia. Ela e o filho, que padecia de um problema renal e precisa fazer hemodiálise. O rapaz, de apenas 11 anos, estava com a bexiga obstruída e sentindo dores tremendas por não poder urinar. A senhora nos contou que tinha ligado diersas vezes para o SAMU 190, mas disseram que não podiam fazer transporte de doentes até o pronto-socorro ou qualquer hospital, e que estavam autorizados a se deslocar apenas para socorrer vítimas de acidentes. Como aquele não era o caso, que o filho dela continuasse a sentir dores. Sem dinheiro para táxi ou ônibus, a senhora recorreu ao juizado de menores, de onde vinha na Avenida Anita Garibaldi. Lá, segundo ela, tinha sido ridicularizada, pois pretendia fazer com que aquele órgão intercedesse perante a SAMU para transportar seu filho. Disseram-lhe que ela pedisse ajuda nas ruas ou a algum motorista de ônibus. Aos motoristas de ônibus ela havia recorrido, em vão, pois não podiam dar carona. A riqueza de detalhes e de informações plausíveis e coerentes, me fez acreditar naquela senhora, até porque ela não nos havia pedido nada, apenas companhia. Então ficamos preocupados e eu me ofereci a pedir que um primo, que possui automóvel, fosse buscar o rapaz em casa e levá-lo até o hospital Santo Antônio, das Obras Assistenciais de Irmã Dulce, onde faria a hemodiálise e tinha ficha de inscrição. O brio e a pudicícia daquela mulher ignorante, que estava sem comer desde as primeiras horas do dia, fez com que ela própria negasse o favor, alegando que não queria incomodar e que morria de vergonha daquela situação. Resumindo, demos a ela o dinheiro para o transporte. Minha esposa, que havia levado para o ensaio alguns pedaços de bolo de chocolate, entregou-os de imediato para que ela saciasse a fome por alguns instantes. A mulher agradeceu, envergonhadíssima e nos recomendou para Deus, Jesus e aumentou ainda mais sua dívida e a nossa para com o Criador, dizendo que Ele nos pagasse. E em dobro, como é de praxe. Essas histórias desagradáveis revelam as abissais mazelas de nosso país. A meu ver essas discussões deveriam permear as ceias natalinas, peças de teatro, filmes de cinema e jantares à luz de velas. Infelizmente lutamos para esquecer essas coisas, ocupados que estamos com nosso consumismo diário, com nosso sexo, com nossos acessos à Internet e com as parcelas do cartão de crédito. Sobre essas situações a mão do Estado deveria pesar com mais força, para dar mais dignidade aos cidadãos (nós) que pagamos os altos impostos nesse país. pois é revoltante a quantidade de bandidos à solta, políticos (igualmente bandidos) que se safam de roubalheiras e falcatruas. traficantes que criam poderes paralelos e debates vazios em torno do nada. Nos esquecemos de João Hélio, arrastado por um carro, desintegrando-se por uma imensa avenida; das vítimas dos recentes acidentes aéreos, dos mensaleiros, dos bandidos de colarinho branco presos nas recentes operações da Polícia Federal. Sou a favor da redução da maioridade penal para crimes hediondos e da pena de morte ou prisão perpétua para os que cometem tais crimes. É preciso mais horror para os que causam o horro, e não benesses, como vemos em nosso país. A compensação pelo crime. O perdão da dívida. A redução de pena por bom comportamento. Como uma pessoa que mata a outra por golpes de tesoura no pescoço e no peito cumpre menos de 20 anos e é libertada com a autorização da justiça sob os artigos da Constituição e do Código Penal? É o que dá ler e tentar entender o mundo em que se vive. Aquela senhora semi-analfabeta talvez seja mais feliz, pois sua única preocupação (ao menos naquele momento) foi conseguir uma maneira de transportar o próprio filho a uma unidade hospitalar.

sábado, 27 de outubro de 2007

Para uma montagem de "À maneira de Godard"



Como aluno do Módulo VI do curso de Artes Cênicas com habilitação em Direção Teatral da Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia me foi imposta, conforme o currículo, a montagem de uma peça teatral completa, utilizando, evidentemente, todos os conhecimentos que foram transmitidos a mim e aos colegas até aqui. Tivemos a oportunidade de escolher um orientador para essa montagem tendo assim uma base para a realização dos procedimentos cênicos a serem adotados. Além disso, a orientadora Cleise Mendes nos instrumentaliza no que tange aos caminhos da dramaturgia, cujo texto, que não poderia ser nosso, foi de livre escolha.
Assim, após ser orientado a adiar a montagem de “O Balcão”, do francês Jean Genet e optar por engavetar o projeto de montagem de “O rei da vela” de Oswald de Andrade por motivos de tempo para execução do mesmo, decidi montar um texto que vinha paquerando a muito tempo, de um autor por quem sou apaixonado: “À maneira de Godard” do carioca Rubem Fonseca.
O texto, que integra a coletânea intitulada “A confraria dos Espadas”, publicado pela editora Companhia das Letras em 1998, fala basicamente de um casal inteligente e articulado que sofre da mesma fobia: aversão pelos órgãos genitais do sexo oposto. Para vencer essa doença, eles fazem um jogo em que o discurso literário e frio ao extremo é acompanhado por movimentos eróticos. Para contrabalancear, o autor introduz um mestre-de-cerimônias, que praticamente dirige a encenação in loco, dando um tom irônico e iconoclasta e abordando características do próprio teatro, como o ritmo, o tempo cronológico e a ação, comentando inclusive a atitude da platéia.
Esse clima tenso, irônico e distendido, e ao mesmo tempo erótico e cômico é a meu ver o que pode interessar ao público. Esclareço: em tempos politicamente corretos e de extrema falta de privacidade onde somos a todo tempo vigiados por câmeras e programas de televisão investem em observar a vida alheia e o comportamento bizarro de certos indivíduos, observar um casal em um jogo onde o objetivo é atingir os órgãos genitais um do outro e conseqüentemente a penetração e o prazer sexual obviamente interessa a qualquer platéia brasileira acostumada à televisão e sua costumeira invasão da vida alheia.
Importante frisar que o casal em cena não se comunica com o público. Essa função é dada apenas ao mestre-de-cerimônias. Com isso, eleva-se ainda mais no espectador a qualidade de voyeur, de estar olhando pelo buraco da fechadura. Não desejo aqui julgar os méritos da TV ou dos programas que tentam imitar a realidade e vigiar a vida alheia. Longe disso! Creio que interessa também ao público essa “quebra” da convenção teatral a que estamos acostumados, ou seja, esconder o truque, utilizar a quarta parede, não deixar transparecer que uma história está sendo contada por atores, com iluminação artificial dentro de uma sala, a partir de um texto decorado etc. enfim, nos fazer acreditar que aquilo está realmente acontecendo naquele momento, segundo o senso comum e coletivo do que é uma representação teatral. Pelo contrário, o mestre-de-cerimônias logo na primeira fala adverte que todos devem prestar bastante atenção ao que vai ser mostrado e dito, do contrário sairão “no meio do espetáculo”, como ele mesmo diz. A meu ver esse jogo, deixado claro de início que se trata de uma representação conduzida de dentro para fora junto com o erotismo e adentrar na vida alheia de dois portadores de uma fobia mórbida, notadamente urbana, interessa bastante ao público. Vale a pena mencionar que se trata no final das contas de uma história de amor, uma vez que, durante toda a trama, Romeu e Julieta (o casal da história, numa referência clara aos amantes de Verona, na conhecida peça de Shakespeare), se amam. Acontece que aqui o Opositor (aludindo agora à análise actancial), seria a fobia que ambos sofrem que os impede de se unir e consumar seu amor. E histórias de amor o público em todos os tempos gosta e é ávido por ver.
O que me interessa no texto de Fonseca para levá-lo ao palco é que ele contém elementos que me atraem na nossa sociedade moderna e tecnológica: a união do prazer e da morte; a busca incessante por um outro que nos complete; a luta incessante por um orgasmo, que não deixa de ser, segundo os franceses, uma pequena morte. Me interessa também a ironia, o humor fino, o erotismo explícito, a frieza e o discurso claramente filosófico pronunciado pelo mestre-de-cerimônias. Uma outra qualidade que me atraiu no texto do contista brasileiro é o experimentalismo, uma vez que percebemos uma reprodução do estilo do cineasta francês Jean-Luc Godard (erotismo, narrativa lenta e distendida, clima tenso etc.) no teatro. Como isso funcionaria? Como aquelas falas enormes poderiam ser ditas sem tornar a cena maçante e chata? E como reagirá a platéia diante de um jogo erótico onde Julieta masturba Romeu e o mesmo ejacula nas mãos dela? Essas características me atraem a estudar e conduzir os atores numa montagem do texto de Rubem Fonseca.
Sem pretensões, pretendo ser fiel ao autor e seguindo a orientação, não tentar ser maior que ele. Prefiro respeitar sua obra e acatar o aconselhamento de primeiro dividir a obra em unidades, percebendo as linhas de força a partir de uma análise actancial. Deixar claro o quê e como par o entendimento do espectador. Pretendo dividir tais unidades juntamente com o elenco e trabalhar com eles as ações físicas de cada parte inspirando-me em técnicas observadas no método de Stanislávski e esmiuçadas no livro Ator e Método e Eugênio Kusnet. Pretendo de início, com a iluminação, elevar no público o senso da realidade dita pelo mestre-de-cerimônias, de que “estamos num teatro”. Não é nada fixo, mas desejo deixar a luz de serviço acesa em sua primeira fala, mostrando os bastidores e os elementos da sala; somente quando as outras personagens entrarem, trabalharei com a construção da iluminação cênica, buscando imagens inspiradas no realismo fantástico, uma vez que não pretendo, ao menos nesse primeiro momento, tratar a peça de forma fria e realista, como é a primeira impressão que temos ao ler o texto. Procurarei abusar da convenção da teatralidade, da brincadeira e do jogo, deixando o estilo de Godard na estrutura mesmo do texto fonsequiano e tentarei junto com o elenco atingir um ponto de sonho ou pesadelo, através da construção de imagens que remetam a platéia ao subconsciente, a um clima felliniano, digamos assim. Buscarei brincar com o figurino no sentido de construí-lo de maneira realista e até mesmo clássica ao mesmo tempo colocando um elemento que destoe do conjunto para atingir imagens grotescas e bizarras, tão urbanas e tão humanas. Quanto ao cenário... Este será o próprio prédio teatral, seguindo as instruções de Rubem Fonseca, apenas uma cama, algumas roupas espalhadas e um telefone. Imagino a cama ser em forma de uma língua gigante ou de um pênis e dois travesseiros em forma de vagina ou de uma pêra cortada ao meio.

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

VINDO E INDO

Vindo e indo. Estou nesse negócio de teatro há nove anos, quando insisti em fazer um curso da Fundação Cultural do Estado. De lá pra cá muitas águas rolaram. Antes eu tinha medo. Hoje tenho mais coragem e alguma prudência. Muita gente bacana. Muita gente sacana. Muita estrela sem brilho. Muito brilho sem estrela! Muitas realizações e surpresas, como foi a temporada de "Gozo Frio", que nem eu acreditava que teria algum sucesso. É tão difícil as pessoas saírem de suas casas para ir ao teatro, que eu fico sempre espantado quando vejo dezenas de pessoas na ante-sala de apresentações. Grande foi a minha surpresa quando vi essa cena todos os dias na temporada da peça citada. Mas a surpresa maior é que não se tratava de um espetáculo em um teatro famoso, nem de uma comédia deliciosa e carnavalesca, nem de uma produção badalada, tampouco tivemos uma mega divulgação ou patrocínios nos cartazes. Cumprimos temporada no terceiro andar de uma biblioteca pública no centro de Salvador, onde a partir das dezoito horas somente o primeiro andar funciona e as pessoas não sabem informar quase nada sobre o que se passa no prédio, a não ser o de praxe, o cotidiano. Pusemos alguns cartazes em locais (talvez, quem sabe?) estratégicos e divulgamos na Internet. E foi um suceso, gente todas as sextas feiras, pessoas que voltaram e que pediam até um debate no final da peça, acerca dos temas abordados! E que público foi aquele? Estranho, diferente, não foi aquele público dos teatros da cidade. E meu maior deleite foi ter trabalhado com um grupo coeso, bacana, de jovens que cumpriram com afinco seu dever, foram até o fim com a proposta. O de praaxe: discutir a relação, percalços, imprevistos, briguinhas tolas, mas tudo foi bem. A todos eles, sem excessão, meu muito obrigados. E gozemos todos, nessas vindas e idas que só a arte nos possibilita.

domingo, 24 de junho de 2007

As virgens tolas e as virgens sábias


Tem uma passagem na Bíblia que fala de algumas virgens. Umas tolas, outras sábias, que assim são por escolherem um determinado caminho e vice-versa. É uma parábola de Jesus, eu não me lembro bem qual o livro e qual o capítulo, e olha que já estudei bastante a Bíblia!


Escolher caminhos no teatro é uma tarefa árdua! e na escola onde estudo parece uma tentativa de clonar alguém, se você perde o embrião é fulminado com críticas as mais variadas. Umas sábias, outras tolas! No semestre que findou meu curso foi dividido em três unidades, onde contemplamos as poéticas dos dramaturgos Bertolt Brecht, Samuel Beckett e Nelson Rodrigues. Um vislumbre e tanto acerca do teatro mundial feito no século XX! Fui detonado nos dois primeiros e elogiado no último. Fiz o mesmo esforço em montar os três. Alguns professores e colegas usam a palavra "armadilha" para certas escolhas estéticas e estilísticas. Uns são prudentes e outros são grosseiros. Me acostumei a isso, creio que o importante é passar. A platéia alienada habita a sala 5. As idéias cristalizadas permeiam a cabeças de certos membros do corpo docente. Sabia que a Escola era conservadora e careta. Me acostumei a isso também. Para mim o que vale é o esforço para alcançar a medida, não a boa medida propriamente dita. Não me envaideço com certos elogios. Sei onde minha cabeça está e para onde vão meus pensamentos. Agradeço sim aos que me apóiam e compreendem minhas idéias. E aos colegas que embarcam em minhas cenas. Em nossas cenas! Sejam escolhas sábias ou não-sábias!

sábado, 23 de junho de 2007

No ralo - final

Ela mi largou e dissi q ia na kza di uma amiga dela. Fikei deitado nu sofá. Pela janela eu vi a polícia xegando. Cocei meu sacu e fexei us olhus. Pensei na claridadi do céu e no vermelho do sangue. Não ouvi mais da metade do istampido.

terça-feira, 8 de maio de 2007

ENSAIO SOBRE O TEATRO FEITO NA BAHIA NA ÉPOCA DO IMPÉRIO


Ao estudar superficialmente a história do teatro brasileiro em livros e periódicos, me perguntei sobre a atividade teatral fora das províncias do Rio de Janeiro e São Paulo à época do Império, sob a égide de D. Pedro. Mais precisamente o teatro que se fazia na Bahia. (Acima: Teatro São João)

Em seu livro História do Teatro na Bahia, publicado em 1959 pela Universidade da Bahia, o historiador Afonso Ruy nos informa que durante todo o século XIX foi decisiva a influência do Real Teatro São João para a formação e identidade cultural de Salvador, uma vez que aquele teatro tornou-se aos poucos o centro social da antiga capital brasileira, principalmente por causa das subvenções e auxílios, fazendo com que o Governo Provincial promovesse a vinda de companhias que se exibiam na Corte.

Isso nos mostra que naquela época a posição governamental com respeito ao teatro não era de censuras, suspeitas e proibições. O que me chama a atenção é que, durante as grandes apresentações teatrais e operísticas, existiam os chamados entreatos, que são os pequenos números ou cenas bem curtas geralmente executadas por cantores ou atores cômicos enquanto se fazia a troca de figurinos e de cenários para o mais novo salto da história que estava sendo contada. Também subiam à ribalta cantores e dançarinos de ambos os sexos. Não foram poucas as ocasiões que tais apresentações causaram problemas. Assim, em 1836, o chefe da polícia, desembargador Antônio Simões da Silva achou-se no direito de intervir perante o administrador do teatro, para o mesmo cancelar os entreatos da atriz Joana Castiga, cujo nome real era Januária de Souza Bittencourt. A atriz apresentava a cançoneta brejeira Castiga meu bem, Castiga, que constava de lundus. Afonso Ruy informa-nos que a atriz recebeu o epíteto de Joana Castiga por conta de um número de lundu, onde, juntamente com o marido, assim cantava: Se quiser casar comigo,/ há de ter segredo em tudo, e entrava pelo estribilho Castiga, castiga, seu preto aqui está! Esse trecho se constituía num delírio de aplausos e os chapéus choviam no palco no palco para que Joaninha o castigasse com os pés.

A proibição causou um grande rebuliço no público, que abandonou o teatro em sinal de protesto e não mais voltaram a freqüentá-lo, fazendo com que o empresário responsável pelo projeto cancelasse toda a temporada. O impasse durou, até que mais tarde por volta do mês de outubro daquele mesmo ano, o empresário consultou o novo chefe de polícia, Francisco Gonçalves, sobre a possibilidade de representar lundus no teatro. A resposta foi negativa, pois o chefe de polícia considerava aquelas danças e canções imorais. Com outra insistência, dessa feita para que as apresentações fossem independentes, e não nos entreatos, a resposta foi novamente negativa. E pior: proibiu-se toda e qualquer espécie de dança, sob a alegação de que as executantes sempre excediam seus limites. O impasse veio ao fim com a Revolta Sabinada, que fechou o teatro por mais de quatro meses, até ser abafada com sangue. Mas a história do teatro baiano dessa época não se restringe a lundus e entreatos cômicos. Por exemplo, em 1837, por volta das comemorações do 2 de julho, onde se celebra a independência da Bahia da Coroa Portuguesa, foi levada à cena a peça A restauração da Bahia ou A expulsão dos Holandeses, drama oferecido ao administrador do Teatro São João, conforme dedicatória do próprio autor da peça, Manuel Antônio da Silva. Segundo o historiador Samuel Blake em seu Dicionário Bibliográfico Brasileiro, publicado no Rio de Janeiro pela Tipografia Nacional em 1902. Blake nos informa que a peça tinha como personagens vultos da época, como militares pernambucanos.

No entanto, nessa época, a Bahia se dava ao luxo de criar e manter grupos teatrais estáveis. Um exemplo é o tipógrafo Antônio da Silva Araújo, que, sem jamais sair da Bahia, conseguiu certa notoriedade como ator e organizador de companhias que atuaram tanto na capital quanto no interior do estado. Segundo o historiador Múcio da Paixão em seu livro O teatro no Brasil, publicado em 1936 pela editora Brasília, informa que a Bahia deu ao teatro nacional os mais ilustres artistas. O autor cita um bom número de atores e atrizes, dentre os quais figura Xisto Bahia, que segundo Múcio, era um ator de vibrante talento, inimitável da exteriorização de tipos nacionais. Segundo Artur Azevedo, foi o autor mais nacional que o Brasil já teve.

Em 1849 desembarcou em Salvador o ator João Caetano, estreando a peça a gargalhada, de Jaques Arago. João Caetano, além de grande ator que era, conquistava todas as platéias com sua simpatia, recitando para os mesmos poemas entusiásticos. O ator apresentou em Salvador todo o repertório de sua Companhia. Dentre as peças, o ator representou Otelo, de Shakespeare. O jornal Correio Mercantil da época ressaltou o talento de Caetano: “É um colosso de desmedida altura, que emparelha-se com as montanhas e quase topa com os astros”. Nas comemorações do 2 de julho, João Caetano representou outra peça de seu repertório, dessa vez contando com a presença, na platéia, do General Labatut, lendário guerreiro comandante das lutas pela independência da Bahia. Labatut vinha da França, onde lutara em Marselha e fixara-se na Bahia. Ao final do primeiro ato ouviu-se uma ovação de palmas, não para os artistas, mas em direção ao camarote da ordem nobre, onde estava Labatut, naquela noite de civismo.

O Teatro São João continuou centralizando o que de melhor havia na vida cultural baiana, perecendo após um incêndio, pondo fim a 110 anos de intensa atividade daquele centro de cultura e convívio social. Tal incêndio talvez tenha sido provocado pelo combustível que acendia as lâmpadas que iluminavam tanto o palco quanto a platéia: azeite de peixe. Segundo o Arquivo Público, foi em 1847 que o Governo da Província importou da Europa um candelabro gigantesco para abrilhantar aquelas noites, uma vez que a utilização de gás carbônico só aconteceria a partir de 1864. Em 1857 fundou-se o Conservatório Dramático da Bahia, que reunia no Teatro São João personalidades artísticas para compor textos, músicas e treinar atores e técnicos para a intensa atividade teatral que vicejava em Salvador. Junto com o Conservatório surgiram várias entidades culturais, dentre as quais participaram o ator Xisto Bahia, Luis Tarquínio e o Visconde do Rio Branco. Essa intensa atividade perdurou até por volta de 1954, quando na cidade surgiam diversos prédios teatrais, públicos e particulares e vários grupos amadores. Sob a administração desses contam-se dezesseis casas de espetáculos.

Desse pequeno estudo, tocou-me saber que em meados do século XIX a Bahia foi um dos mais ativos centros culturais do país, sendo a atividade teatral um dos ícones da inteligência baiana e brasileira da época. Não nos esqueçamos que tratava-se de uma sociedade altamente preconceituosa, como a nossa, mas aristocrática, com a eterna luta de classes. Em meio à produção cultural e teatral, explodiam revoluções, piquetes organizados por republicanos e abolicionistas. O Brasil vivia uma época de transição, no fim do túnel enxergava-se a República e o fim da monarquia. Os ideais socialistas também eram vistos de longe. Estava perto a carnificina de Canudos que havia crescido quase como uma pequena nação. Mas, como nossa atual sociedade, nossos antigos pares tentavam criar (e criavam) objetos culturais testemunhando a época em que viviam. Produziam, enfim, em meio aos problemas que os acometia.

Fica a lição dolorosa em saber que com todos os avanços sociais, tecnológicos e econômicos, ou por causa deles e das mudanças que operaram em nossa sociedade, não contamos mais com tal riqueza cultural e teatral, mergulhados que estamos em nossa diversidade de estilos e dependência econômica.




domingo, 29 de abril de 2007

SOBRE FRONTALIDADE E COISAS QUE TAIS

No segundo semestre do ano de 2006, desenvolvemos na Sala 5 da Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia, estudos práticos laboratoriais em certa disciplina do módulo IV do curso de Direção Teatral. As aulas tinham por fundamento estudos das áreas de importância do palco convencional italiano e demais proposições concebidas a partir da estética realista.


Em laboratórios executados na Sala 5 da Escola de Teatro da UFBA no segundo semestre de 2006, nos foi imposta a prática de exercícios inspirados em livro de autor estadunidense - cujo nome não me lembro agora – cujas teorias (e práticas) nos levariam um maior entendimento acerca da arrumação da cena num palco de convenção à italiana – onde o público está disposto numa posição mais baixa em relação ao palco e totalmente de frente para o mesmo. Aprendemos que esse palco deve ser um pouco mais estreito e mais alto na parte de trás visando à total exposição frente ao espectador.

Foram exercícios inspiradores de total improviso, nos quais o docente nos dava um tema ou uma simples dica e tínhamos que desenvolver uma pequena cena com a presença de atores convidados ou com nós mesmos como dublê de atores. Quase todos os exercícios tinham como prenúncio a ausência de texto e de palavras – mas não de sons – o que dificultava ainda mais. Dificultava mas nos convidava a todos a uma reflexão acerca das possibilidades de criação de uma cena não bem feita e bem acabada, mas coerente com o que tinha sido proposto. Era um convite ao exercício da criatividade em condições mínimas – não quero citar aqui as prerrogativas insalubres da sala -, somente dois atores e uma ação que transcorria sem objetos, figurinos, artifícios de iluminação, música ou som mecânico. No curso das aulas – que também eram algumas vezes cansativas e monótonas, como toda prática que esconde certo mistério e uma nova descoberta de forma artesanal, científica e que necessita certa dose de paciência, erros e mais erros para conseguir um acerto ou aprender uma lição – foi-nos permitido utilizar algum texto.

Tocou-me particularmente a criação de áreas no palco e a quebra das mesmas no sentido de ultrapassar fronteiras. Isso me fez entender, por exemplo, a possibilidade de criação de cenas simultâneas com a ausência de cenários; fazer o público perceber que num determinado espaço do palco instaurou-se um ambiente, instaurou-se uma cena dentro do todo. E que com o trabalho conjunto do diretor e do ator – e especialmente com o virtuosismo desse último – essas áreas podem ficar bem claras e totalmente à vista das pessoas. Outro quesito foi a aparição de determinadas personagens e a importância dessas aparições para o espetáculo. Esse estudo fora feito a partir do estudo do cérebro humano e do direcionamento do olhar. Assim, a primeira personagem deve entrar – se isso for necessário, se já não estiver em cena, é apenas uma convenção – pelo oposto ao que o público adentrou na sala. Não sei se foi proposital, creio que sim, mas esse exercício foi feito numa segunda feira e no sábado seguinte fui assistir a um espetáculo realista que estava em cartaz na cidade. Entramos na sala pelo lado esquerdo e a peça começou com as personagens entrando pela direita. Entendi muito bem como eles se tornam estranhos a nós e não um de nós entrando pelo lado oposto. Tentei fazer isso em minha cena de final de semestre aplicando também as técnicas das áreas de importância e delimitação de fronteiras. Hoje consigo perceber o efeito disso em encenações bem intencionadas.

Aqueles laboratórios me foram utilíssimos à medida que me fizeram entender que pôr um ator em cena não é apenas um apelo estético, mas a prática de uma ciência lapidada pelos grandes mestres do fazer teatral.





quinta-feira, 5 de abril de 2007

De quando em vez

Vez em quando eu morro.
E tenho a clara sensação de estar bem morto.
Isso é muito bom:
daqui posso ver melhor os vivos
e a terrível beleza
do mundo encharcado de dor e medo.
E assim percebo que minha morte
tão eventual
não passa um sentido coletivo.
Não sei se de medo.
Não sei se de dor.

domingo, 25 de março de 2007

NO RALO - 4

Mi despedi di Babão i fui diretu pra kza. Olhei atentamenti as ruas: todas bem limpinhas. O cheiru até q é agradável. Lavanda modificada. Tudo aqui é midificado e modificado. Minha mãe me contou que quando ela criança as coisas não eram assim. Mas pra melhorar nossas vidas os cientistas inventaram esses alimentos modificados. E a mídia midificou tudo. Eu não sei u gostu de um alimento não-modificado, ou natural como si dizia antigamenti. Cheguei em kza minha madrasta estava tomando banho. Sentei no sofá e fiquei imaginado: ela sai do banheiro enrolada na toalha, fecha as janelas da kza, senta-se ao meu ladu e começa a me beijar. Eu fico logo de pau duro. Ela começa a xupar. Depois eu xupu ela. Nós nos amamos. Então eu acordo do sonho com ela cantando aquelas músicas bonitas que me deixam com os olhos cheios de lágrima. Eu gosto de estar ao lado dela. Minha mãe me contou que antigamenti essas coisas só se podia fazer a parti dos dezoito anos. Hoje uma pessoa é adulta a parti dos quinze anos. Ainda bem. Eu tenho dezesseti. Posso chupar minha madrasta a hora que eu quizer. Nos sonhos. Eu a amo, tenho desejo de istar com ela. É um sentimento estranho que eu não queria. Mas o que é, é. Ela goza em minha boca. Sintu o gosto di seu gozo. Delicioso! Ela sempre se arrenpendi, não por ficar excitada comigu, mas porque não se pode ter contato com as secreções. É uma prática abolida da nossa sociedade. Podemos fazer pouca coisa. Tudo ofende e suja as relações pessoais para com o próximo. Preconceitu é uma palavra que foi abolida do dicionário, é coisa du passado. Não existe mais o preconceitu. Também gozei. Minhas mãos estão sujas di esperma. Minhas pernas estão fracas. Ela mi abraça e mi beija.

domingo, 11 de março de 2007

NO RALO - 3

Nu meio du caminho eu i Babão paramos pra tomar um ar. Aproveitei pra cuspi bastanti. As latinhas quei o governo botou em cada posti estavam pintadas de cores variadas. Hoje em dia ninguém mais cospi na rua, é uma coisa deplorável todo mundo acha. Hoje ninguém cumprimenta ninguém, nem senta torto nu banco, nem aperta a mão du outro pra não parecer assédiu, nem xinga nem pra si mesmu porque é errado, ninguém! Eu olhu ao redor e vejo tudo branco, cinza e coloridu. Mas é tudo limpo e clean. Tudo é em dois idiomas. Sei que vou ser pego. Eu i Babão. Nesse mundo não se pode fazer essas coisas. Também ninguém pode ser preso, essa é uma política do passado. É grotesca, é bárbara. Vou ganhar um Microchip de Exacerbamento de Conduta Para o Que é Digno e Moralmente Aceitável Para o Convívio Social.

domingo, 4 de março de 2007

NO RALO - 2

a gente estava de férias i o que o que um carinha de férias da escola faz? Apronta por aí, disse Babão; parasita, eu falei dando uma gargalhada i arrotando o mixto com gosto de vinho. Passei perto da escola i vi o vigia que não gosta de mim. Minha vontade eh esmagar a cabeça dele mas não faço isso porque não quero. Sei que si fizer vou ter de ficar internado i meu pai vai dar um jeito di me soltar i depois mi passar um sabão. Da última vez que toquei fogo naquele carrinho di pipoca do carinha da esquina ele inventou de ler a Bíblia pra mim. Não adiantou nada. Eu i Babão tinha uma coisa melhor em mente: faturar umazinha que sempre dá mole pra mim. Sempre soube que meus olhos verdes deixam as meninas de boca aberta mas aquela tava dando muito mole, sempre di porta aberta i si ixibindo; outro dia até me deu tchauzinho; a gente sabia que a mãe dela saía todo dia di manhã então eu cheguei da porta i ela estava lá feito a flor mais bonita do dia esperando ser colhida como aquele tantinho de orvalho na ponta das pétalas. Conversamos um pouco, eu pedi pra i no banheiro e ela deixou. Eu tinha combinado com o Babão que quando eu entrasse ele vinha logo atrás. Ainda deu tempo di eu ir no banheiro fazer não sei o quê. Ainda assim mijei um pouquinho na tampa da latrina. Meu mijo é sempri amarelão i grosso. Quando voltei ela estava sentada com um livro na mão. Eu pedi a ela um beijo, ela sorriu e disse tá certo. Sentei do lado dela, senti cheiro de perfume. Começamos a nos beijar. Eu vi Babão pela greta da porta que ela tinha deixado aberta talvez por precaução. Chamei eli com um sinal. Quando eli entrou eu já tava segurando o pescoço dela. Eli veio por trás e tampou a boca dela com o pano de chão que tava na entrada na casa. Enquanto eu baixava as calças e tirava a calcinha dela eli amarrou os braços dela no sofá. Ela não parava de se bater e tentar gritar. Chorava pra caramba. Eu não quis nem saber, meti assim mesmo, meti gostoso. Já estava ali não podia voltar pra casa de barriga vazia. Depois foi a vez do Babão, que já estava com a boca cheia de água. Eu gozei dentro dela. A buceta dela estava toda vermelha. Babão deixou uma baita marca no pescoço da flor da manhã com orvalho nas pétalas. Se tu falar alguma coisa a gente vem aki i ti mata gatinha eu falei na hora de i embora. Quando saímos o sol forte ofuscou minhas vistas. Eu botei a mão esquerda na frente e subimos a ladera.

sexta-feira, 2 de março de 2007

NO RALO - 1

acordei tardi senti a virilha coçando i botei a mão direita era o resto de uma casca de pão que comi no dia anterior. Coçei a virilha i peguei em meu pau que tava duro i doendo eu tinha batido uma antes de dormir começei a bater outra i gozei rapidinho o lençol ficou todo sujo minha mãe perguntou se eu tinha levado comida pro quarto eh mãe eu levo sempre alguma comida pro quarto eu falei já saindo enquanto ela reclamava. Encontrei com Babão que tava me esperando na porta da lanchonete. Ele segurava um mixto e uma garrafa de refrigerante cheia de vinho e eu bebi do vinho e comi do mixto.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2007

COMOS


Segunda feira de carnaval fui em busca das velhas tradições, dos velhos instintos primitivos e da ancestralidade perdida no caos sublime de nossa sociedade. Não sei se consegui. Apenas uma aproximação. Todo o tempo visões dos cortejos fálicos (o badalo do negão). Bebendo o vinho com nome de santo católico (São Jorge) e lembrando do culto a Dionísio, delicioso pagão. Uma diversão tosca, tola e ingênua mesmo, algumas horas de satisfação e de sentimento de vida correndo nas veias velhas e cansadas pelo cotidiano arrasador.

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2007

INCAPACIDADE MENTAL


Céus! Fui ao hospital São Rafael buscar o resultado de um exame e no longo percurso me pus a pensar sobre a atual conjuntura do país chamado Brasil. Principalmente essa questão do menino João Hélio, aquele infeliz que pereceu nas mãos de criminosos infames. E da nossa vil e triste condição de poder criar um hiato para dançar, levantar os braços, rebolar e se embriagar no carnaval. E mais: continuar gerando pessoas com mentes tão insanas. Claro que não podemos nos ausentar de nossa própria felicidade e de nossos próprios prazeres, mas o momento é de completa histeria coletiva em torno da questão da maioridade penal. Me vi em total confusão mental em torno da questão. Concordo que muita coisa deve ser feita no grito, na histeria e no calor da emoção. Não foi assim para tentar derrubar a ditadura militar? Não foi assim desde sempre?

Mas também penso que a mesma histeria e comoção poderia existir em outros momentos, tão terríveis quanto o do garoto do Rio de Janeiro. Não preciso citar aqui atos criminosos perpetrados pelo Governo, pelos políticos e por nós mesmos diariamente, acostumados que estamos com tanta miséria e infâmia que ficamos aturdidos e nos tornamos incapazes mentalmente, de escolher clamar por esta ou aquela vítima do sistema que é, de fato, um "rolo repressor", como dizia a saudosa Elis Regina.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2007

HORA DA FOME



Vem aquela hora da fome. A fome dos instintos, das coisas mais precárias que evoluem dentro de mim e dos seres que me cercam. Um dia haverá em que essa fome se tornará tão grande e habitará aquilo que é mais universal e transcendente.

Vem a hora e agora já é em que todas as fomes se tornarão qualquer coisa sem importância, disfarçadas de uma individual força explosiva que implode para dentro, para bem fundo de cada um de nós.

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2007

Platão


De quando em vez: visões. Da caverna!

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2007

...das coisas primeiras


Fora um sufoco o último final de semana. Contentamentos e decepções. Decepções claro, com os humanos, esses seres honrados, nobres e feitos à imagem e semelhança de Deus. Assim me distancio cada vez mais. Creio que a arte me serve para isso. Para uma certa comunicação, um grito ou grunhido talvez. Prefiro lembrar dos contentamentos, das alegrias, das palmas e dos sorrisos das crianças pobres, que não são carentes, é que não conseguem, ainda, enxergar a clarividência das coisas primeiras. E das últimas.

12 DIAS EM SODOMA


A luz vai crescendo e ilumina um carrinho de vender café. Ele se move sozinho. Música ensurdecedora. Um homem corre para pegá-lo. Olha para o público e assusta-se. Põe-se a pensar. Ouve-se o início de uma história. O homem, que se chama João, faz um sinal e a narração cessa.

João - Nada disso. Hoje quem conta a história sou eu. Eu! Eu sei de tudo. E mais um pouco. Eu sim, sou esperto, muito esperto. Cresci aqui, entre montes de prédios, montes de carros, fumaça, gritos, corre-corre, buzinas, enfim, tudo o que está contido numa cidade grande e com pessoas civilizadas. Podem me chamar simplesmente de M. E eu quero que esta seja uma história excitante. Lembro de meu padrasto, que era cristão, contando para mim histórias sobre as cidades de Sodoma e Gomorra. Sodoma e Gomorra. Onde tudo era permitido, terra sem lei. Crimes, roubos, sodomia. E ele dizia que nós vivemos numa Sodoma. E eu achei aquilo incrível, nós vivemos numa Sodoma. Nós vivemos numa Sodoma.
João - Estão vendo essa lojinha aqui atrás? Pois é. Eu escolhi este local para vender café. Essa é uma lojinha que vende roupa pra gente gorda. Mas eles dizem que são roupas especiais para pessoas especiais, pode?
João - Aqui eles me verão mais rápido. Pois um dia eu estava botando café na garrafa, e o café estava tão quente, eu estava com muita pressa, e o café tão quente, e eu com muita pressa e o café tão quente e eu com muita pressa e o café acabou derramando e queimou minhas mãos. E com o susto e a dor eu deixei cair a garrafa de café, que se espatifou no chão. Eu ainda corri para tentar pagá-la, mas só consegui pegar um caco do vidro que revestia internamente a garrafa térmica e me cortei. (Um tempo.) Pela primeira vez eu vi meu próprio sangue. O sangue: A vida. Instantaneamente lembrei-me da morte. Lembrei-me do Ivan e seus cabelinhos loiros. Tinha apenas seis anos, o Ivan e seus cabelinhos loiros. Tinha apenas seis anos, o Ivan. Brincava um pouco distante de sua casa com um carrinho de garrafinha plástica cheia de terra.
João - Então o homem veio e lhe ofereceu quatro reais para o pobre Ivan ajudá-lo a ir acender velas para São Jorge. Caminharam por quase uma hora e na beira de uma praia deserta, o homem tentou beijar o menino, que resistiu. Ele tentou mais uma vez, o menino relutou, não permitiu, então o tal homem pegou uma pedra do mar, azul, linda, e se viu obrigado a bater na cabeçinha do Ivan, que desfaleceu. Então o homem... (Gesto de abaixar as calças. Pára). É, isso mesmo, ele fez. Em seguida apertou com bastante força o... (Põe as mãos no próprio pescoço.) Isso mesmo. Foi fácil apertar aquele pobre pescoço fino e macio. Depois enterrou o corpinho do pobre Ivan na areia. Dias depois, turistas falando alemão, francês e Inglês sentiram um forte cheiro e chamaram a polícia. E o resto... Bem, o resto é fácil imaginar.
João - A velhinha do cento e um quando viu a notícia pela TV botou uma mão na testa, outra no peito e falou. “Misericódia, piedade senhor, é o fim do mundo, onde nós vamos parar”? Que maldade fazer isso com uma criancinha!
João - Eu pergunto: E se fosse com um adulto, seria menos maldade?
João - O homem lembrou que já era tarde, noite avançada, chegaria na hora exata que seu padrasto estaria lendo em voz alta as Escrituras Sagradas e ele não admite interrupções. O homem com certeza apanharia do padrasto. Com vinte e um anos de idade.
João - O velhinho de cento e um falou para a esposa, a velhinha do cento e um: “Minha opinião todo mundo já sabe, era cortar o pênis e os polegar e dar tudo pros cachorro comer, depois meter bala no safado que fez isso com o pobre menino.”
João - Tão ingênuo, o velhinho do cento e um. Imagine se a nossa República iria cometer esse abuso, esse acinte contra os direitos humanos! República e leis e sistemas que ele próprio, o velhinho do cento e um ajudou a criar! E reclama de quê? O pai do menino Ivan, deu no rádio, jornal e TV, o pai do Ivan se entregou a bebida e todas as noites bate com a cabeça na parede, tentando dormir e esquecer a imagem do filho, no dia do reconhecimento. A hora em que o pai desesperado saiu do IML foi flagrada pelas lentes das câmeras dos telejornais, todos correram pra ver, e acharam absurdo, mas no outro dia esqueceram. Faço questão de lembrar.
João - A empregada dos velhinhos do cento e um disse: Isso acontece com quem não tem Jesus no coração, vai ver ele tava com o Diabo no corpo.
João - Com o diabo no corpo ou não, aquele homem era amante de literatura e naqueles dias lia lindos poemas e ouvia lindas canções. Recitava baixinho o poema Auto do Frade do João Cabral:
Eu sei que no fim de tudo
Um poço cego me fita.
Difícil é pensar nele
Neste passeio de um dia,
Neste passeio sem volta
(meu bilhete é só de ida)
Mas, por estreita que seja,
Dela posso ver o dia,
Dia Recife e Nordeste
Gramática e Geometria,
De beira-mar e Sertão
Onde minha vida um dia.

João - Era o quinto dia. Após a morte, o jovem rapaz saiu com alguns colegas para uma higiene mental, foi a uma boate. Pela segunda vez experimentou cocaína. Cheirou bastante, como também cheirou o pescoço de duas moças ao mesmo tempo atrás das árvores na boate, curtiu muito, ele também era homem, ele sabia das coisas, sabia aproveitar a vida, escornado sobre um vaso sanitário do banheiro feminino, ele viu o sol nascer, e foi embora para casa, perdido dos colegas de boate, cheirando a álcool e sexo animal. Na rua deserta, um menino caminhava sozinho, indo pra escola, segurando numa mão os livros sebentos e na outra um saquinho desses de supermercado com um pão e duas bananas, a merenda do pobre coitado. O rapaz enfiou uma das mãos no bolso da calça, ou enfiou as duas, eu não lembro bem, e sacudiu algumas moedinhas. A criança olhou e sorriu ternamente.
(Apenas com gestos: aproxima-se da criança, acena, mostra as moedas, insiste, chama o menino. Somente com gestos: Tenta beijá-lo, a criança resiste, aplica-lhe um soco com bastante força, a criança cai desfalecida.).
João - Depois de tudo consumado, voltou para casa e jogou-se na cama. Eu não me recordo muito bem, teria ele demorado a dormir? Agora lembro, acordou e já era noite. Ainda lépido e naturalmente foi até a área de serviço, botou o facão do padrasto numa sacola, retornou ao local onde estava o corpo, agora já era o corpo do garoto, que ainda segurava em definitivo os livros. Agarrado ao conhecimento e à sabedoria.
João - Saiu nos jornais, na televisão, deu no rádio: Criança estuprada, estrangulada, teve a cabeça decepada por maníaco.
João - E ele foi ao enterro. (Canta uma música própria desse evento.) Olhou a face desolada da mãe do garoto. Uma velhinha lhe oferecia chá, provavelmente... Não consigo lembrar do cheiro, apenas do caixão fechado. Dizem que a mãe, dona Firmina de Jesus, viu o filho pela TV, a identidade nas mãos de um repórter sanguinário.
João - O balconista de um bar, limpando seu velho balcão, revoltado, disse isso é um absurdo. Que mundo é esse? Um homem que tomava sua cervejinha diária berrou que tem que caçar e matar o filho da puta que fez isso. Nem deu ouvidos ao rapaz que tentava lhe vender uma porção de amendoim cozido como tira-gosto. O velhinho do cento e um disse todo mundo já sabe minha opinião, devia pegar esse marginal, fazer a mesma coisa com ele, só que com um cabo de vassoura, depois arrancar os olhos dele e jogar ele numa jaula com leões, se ele conseguir escapar, ele tá livre. A empregada, assistindo o anúncio da novela, disse eu entrego tudo a Jesus, e sorriu quando o galã beijou a atriz principal.

João – Estamos no nono dia! Os jornais e telejornais esqueceram rapidinho as outras notícias, pois o maníaco, o monstro rendia mais, muito mais. Monstro!, gritava a capa da revista. Monstro a solta!, berrava a capa da outra. Maníaco pelas ruas!, alardeava a terceira. Quem conseguiria vender mais? O apresentador do telejornal da nação franzia as sobrancelhas e na outra notícia, logo em seguida, sorria ternamente. O maníaco, o monstro, sentado num banco de ônibus, via flashes de seus crimes. E sentiu uma vontade carnal.
João – Décimo primeiro dia. Passou tão rápido, não? Ele estava no quarto de um garoto e uma garota de programa, sua mesada. O rapaz apenas estudava, dali há dois anos seria médico, um excelente ginecologista como o pai, era o sonho da mãe, mas naquele momento ele se entregava aos saborosos prazeres da carne entre um homem e uma mulher. Acariciava o piercing no umbigo dela, que seria uma futura jornalista. Mas foi interrompido pelo padrasto, sempre ele, a tirar-lhe os momentos de prazer. O coroa reclamava do som alto.
- Porra coroa, vai dormir m ais cedo, porra, me deixa em paz, botei o som alto pra você não escutar nossa conversa.

João – Para não ouvir os gemidos, deveria ter dito. A mãe fechou portas e janelas para os vizinhos. Mandou o rapaz e a moça embora, que só cobraram a metade do combinado. Ele com seu piercing no pênis. Sua mãe lhe mandou ter calma. Ele teve calma. Desculpou-se, beijou a mãe, cujos olhos se encheram de lágrimas. O padrasto deu as costas. As costas. E sentou-se no sofá. De costas. E foi ver TV. Sempre a TV!
João – O padrasto era um homem bom. Tinha três casas que ele alugava e que lhe davam certa segurança financeira, mas gostava de trabalhar. Um homem só é útil para a sociedade quando trabalha, dizia ele. Desligou a TV e foi ler a Bíblia. Trabalhava como motorista de ônibus, aturando o barulho do motor e aturando gente. Homem calvo e baixinho cumprimentava ternamente as pessoas e todas as semanas presenteava a mulher com flores. O rapaz usou um facão. Mas não conseguiu decepar a cabeça daquele cristão, ficou zonzo quando viu o sangue espirrar. A cabeça pendeu do lado direito do corpo, a mãe vinha do quarto, assustada que ficou com o barulho seco e abafado. Sua camisola tinha flores bordadas com linha azul e rosa. Não deu tempo sequer de abrir a porta e fugir, gritar, pedir socorro. Foi atingida pelo jarro com flores já murchas que o marido lhe presenteara.
João – Olhou-se no espelho, ajeitou os cabelos. Desceu pelo elevador mesmo, os pés deixando pegadas de sangue. Levou consigo a TV, a polícia pensaria que foi um assalto, mas no fundo ele queria mesmo ser pego. Esbarrou com o velhinho do cento e um que disse meu filho, não carregue tanto peso, senão vai ficar com problemas de coluna, como esse velho aqui. Ah, tão ingênuo o velhinho do cento e um...
João – Jogou a TV num monte de lixo na esquina, as pessoas desenvolvidas das cidades desenvolvidas jogam seus dejetos nas ruas. Foi dormir num hotel barato. Na ficha assinou Mônica, mas o atendente nem olhou.
João – Décimo segundo dia. Acordou bem cedo. Doze dias em Sodoma. Estava tudo planejado. Voltou para casa e pisou os pés apenas na garagem. Ninguém o viu entrar. O carrinho estava todo enfeitado. (Um tempo.) Enchi a última garrafa de café, tudo seria nos mínimos detalhes. O café estava muito quente e eu estava com pressa. O café acabou derramando e queimou minhas mãos. Com o susto e a dor eu deixei cair a velha garrafa que se espatifou e eu acabei me cortando e vi meu próprio sangue.
(Um tempo. Assustado, ele olha para os lados. Vozes o perturbam. Tenta atender aos chamados. Pára. Pausa.)

João – Saí rapidamente dali. O ponto tinha sido escolhido. Em frente a uma lojinha que vende roupas para pessoas gordas. Aquelas criancinhas eu mandei para o céu, para junto de Deus, para que elas não sofram como nós sofremos. Eu bebi o sangue delas para ficar jovem e bonito como elas. O vizinho que passeia bem cedo com seu cachorro me viu saindo da garagem. Sorri para ele e ele correu. Foi chamar a polícia. Não sabem da terça metade. Eu vou confessar tudo, só estou esperando por eles. (Olha para longe.) Não disse? Aí vêm eles, esses homens da Lei! O filme que eu mais gosto é “Sansão e Dalila”, porque conta a história verdadeira de um homem que perdeu toda a sua força e depois se recuperou. Já sinto saudades de minha mãe, de minha casa, de ver o movimento. Eu gosto de me disfarçar, me disfarcei assim. Foram doze dias aqui em Sodoma.
“E, reduzindo a cinzas as cidades de Sodoma e Gomorra, Ele as condenou, estabelecendo para as pessoas ímpias um modelo das coisas que hão de acontecer.”
(Faz uma imagem como de oração, a imagem transforma-se num policial que o algema e o leva.)

Em algum lugar do passado eu me perdi. Só não lembro quando.

João – Eu sou maluco. Ninguém vai gostar dessa história, ninguém vai querer ler uma história de terror como essa. Ainda mais quando eu disser que essa foi uma história real que acontecer lá no Brasil, digo, aqui no Brasil! Vê se pode. Um escritor famoso como eu representando a própria história que escreveu. E chega de histórias de terror. Vou escrever uma história edificante, uma história para crianças, um conto infantil, um Andersen da vida.

Capítulo primeiro: uma criança e um gato. A criança atira um pau no gato!

FIM

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2007

AI QUE VIDA BOA!


Ontem pensei assim: que vida boa! com a ironia que me é peculiar. A minha frieza e medo disfarçados de arrogância me remetem a profundo abismos de desesperos internos. Perto do abismo. Choro sempre diante do espelho. Escondido que fico no banheiro. Ou quando não há ninguém em casa. Fecho os olhos e caio dentro de mim. Acordo cedo e ouço o silêncio da manhã. realmente essa vida é uma merda. Algumas pitadas de momentos bons, satisfações e pequenos gozos. Mas o resto é ilusão e o vento que passa e leva tudo para bem longe.

segunda-feira, 22 de janeiro de 2007

OPUS CIT


Põe a mesa do jantar. Em silêncio. Bebe um gole de vinho. Sai. Retorna. Enquanto come fala.


Mas, no entanto... Tem o Tchekov! Um... O Artaud. Porque Beckett, porque Artaud, porque Beckett, porque Brecht, porque Artaud, porque Staniláviski. E Brecht? Brecht é Brecht! Brecht... é Brecht! Como O grande. Nada. O grande Constantin... porque tem também o Piscator, mas tem os Sax, os Sax, os Sax, os Sax, os Sax os Sax, os Sax, os Sax, os Sax, os Sax Meiningen, tem o Brook, tem o Antonin Artaud, tem o Piscator. Ah, sim, porque Tchekov, porque Beckett tem o Beckett, tem o Artaud, tem o Piscator, tem o Becket, porque Tchekov, porque Becket, porque Tchekov, porque Artaud, porque Grotovski.

Beckett? Tem o Brecht, tem o Beckett, tem o Piscator, tem o Brook, Peter, porque Grotovski, porque Tchekov, porque Piscator, porque Brecht, os simbolistas, porque o texto? Porque o texto! Porque Brecht, porque Tchekov, porque Antonin, porque Artaud, porque Gordon, porque Beckett, porque Batty, porque a escrita coletiva, porque o textocentrismo, porque Brecht, porque Constantin, porque Ronconi, porque Grotovski, porque Tchekov, porque Artaud, porque Stanislaviski, porque Appia, a pia branca de Appia, porque o Living, porque Brecht, porque Artaud, porque Beckett, porque Ronconi, porque Shakespeare! Shakespeare! Porque o Bem, porque Elisabeth, porque Marlowe, porque Brecht, porque Stanislaviski, porque Appia, porque Craig, porque Gordon. Oh! Gordon! Porque Vilar, porque Roubine, roubou Roubine, arrombou Roubine, o Jean-Jacques, o Brecht, o Artaud, o Antonin, o Living, o Vilar, o Gordon, o Craig, o palco naturalista! Ah o palco naturalista. Bem o palco naturalista! Porque o palco naturalista? Bem a frontal frontalidade do frontispício porque a Igreja, o Soleil, o Soleil, o Soleil, o duque, os Sax, os Sax, os Sax, os Sax, os Sax, os Sax, apud, Meiningen, Shakespeare, o bardo, o dardo, o bardo, o dardo, o bardo, o dardo do bardo, o bardo com o dardo no dedo do dardo do bardo, do Shakespeare, porque Grotovski, porque o Vilar, porque o Piscator, o Piscator, o Piscator, o Piscator, o Piscator, piscou, piscando o Piscator, o ato, o ator do ator, nos quatro, de quatro, atroz, porque Brecht porque Artaud, disso, isso, disso, daquilo, daquele, ele, o Shakespeare, o bardo inglês, porque Tchekov, porque Gordon, o dilema, da ema, da ema, do dilema, da ema, da ema, o dilema, o dilema, o dilema, da ema da ema.

A expressão corporal? A expressão corporal! A luz, o corpus, o intérprete, porque o ator, a rota, o ator, a rota, o ator, a rota, o ator, o ator, o ator, porque Cristo, porque a Bíblia, porque o absurdo, o absurdo, do absurdo, do absurdo, porque Tchekov, porque Tchekov, porque Brecht, porque Beckett, porque Becket, Samuel, el, el, el, el, et, et, et al, autor entidade, autor pessoal, autor entidade, autor pessoal, autor entidade, autor pessoal, autor entidade, autor pessoal, apud, apud, apud, apud, Brecht apud, Grotovski apud, Antonin apud, porque Beckett, ibidem, ibidem, ibidem, supra, porque Tchekov, porque Tchekov, porque Brecht, porque Artaud, porque exempli gratia, citado por loco citato, porque Brecht, porque Tchekov, porque Constantin, porque Ronconi, porque Vilar, porque Avignon, porque sine loco, porque sine nomine porque o épico, porque Piscator, porque Aristóteles, porque a regra, das uníssonas unidades, porque a tragédia, porque a comédia, porque os gregos, porque a comédia, porque Aristófanes, porque Plauto, porque Platão, a comédia, a nova comédia nova, o século de ouro, a regra das unidades uníssonas, porque Aristóteles porque a ação, o tempo, o lugar, a cidade, a catártica catarse, o vômito, a música, a dança, o espetáculo, o coro, o coro do coturno do coro, a túnica única do coro, de Brecht, de Artaud, de Constantin, de Beckett, de Peter, de Brook, a relação frontal, mutatis mutandis, a cena, a cena, a cena realista, naturalista, naturalista-realista, realista-naturalista, moderna, caverna, caverna moderna, a crueldade, a crueldade teatro pobre, paupérrimo, paupérrimo!, Jarry, já ri de tudo que vi, de Jarry ao jarro ao jarro já ri Jarry da Dorotéia, da iluminação, do expressionismo, porque o impressionismo, o expressionismo mutatis mutandis, os Sax, os Sax, os Sax, os Sax a teatralidade, a teatralidade dos teatros modernos de Shakespeare, do dardo do barro, porque Shakespeare, porque Marlowe, porque Ben, Ben Johnson, porque Volpone, porque a maquiagem, porque a encenação, a encenação oriental, ocidental, ocidental ou oriental? Ih, complicada a complicação do clímax do conflito da crise... E a catársis, oh! A catársis do bioritmo da biomecânica da biodinâmica do arquétipo do arconte e do arlequim com sua arlequinada. Vicentino, Vicente, Gil Vicente, vil Vicente. Viu Vicente? Vá pro inferno! Ui, Arturo! Porque Strehler porque Vilar, porque Genet deu no Jean do Genet. Porque Decreux deu cru no cu da estátua de Decreux que enfiou no decreux do Arrabal. O épico epílogo, o épico epílogo, o epílogo do monólogo, o monólogo do epílogo, porque a revista do teatro do teatro de revista da revista de teatro do teatro de revista, da revista de teatro e do teatro de revista, resista, vista, insista na verossimilhança do deus ex ex ex ex ex ex ex ex ex machina, machina machina do da da da da da da da da dadaísmo porque Brecht, porque Artaud importa teatro, ato, onde se vê as gentes de Constantin, porque Brecht, porque Artaud, porque realismo, ismo, ismo, ismo, ismo, ismo, porque a cena, acena, a cena acena, acerca da cena naturalismo, ismo, ismo, ismo. Porque há o urdimento da vara do vão wagneriano e da vomitoria e da farsa farsesca da falha trágica tragicômica do fandango e do fantoche da estrutura dramática. Meyerhold? Meyerhold porque Meyerhold! Passim, et elli, et el, opus, profundus opus, aproximadamente, porque o boulevard, na boca da cena do boulevard, metendo a mão na vara, no boneco da vara, no poço da orquestra, de Brecht, porque Ronconi, porque Artaud, porque Brook, Peter, e a memória emocional, o episódio do drama moderno de ensaio de gabinete porque o enredo, o enredo, o enredo, o marxismo, o realismo socialista, a verdade poética da Poética porque o ditirambo, a imitação, porque o reconhecimento, porque a peripécia porque a hamartia, a harmatia a hamartía e a harmátia a dicção, porque e melopéia da tragédia clássica, porque Ésquilo, da tragédia de vingança, porque Eurípides, porque a tragédia neoclássica, porque Sófocles, porque Molière, do romantismo, no distanciamento, no distante distanciamento da distância distanciada de Constantin, da criação coletiva, da direção, porque a direção, a encenação, a direção da encenação, do absurdo da crítica formalista, do coringa coringado, coringando coringuísticamente o Boal, Augusto. Lembro, o augusto Augusto porque o palco nu, porque o palco giratório, porque o happening, porque Brecht, porque Artaud, porque Constantin, porque o corral, porque a espada da capa da espada do espadachim, da fé cênica da performance performática e da merda.

Sem querer derruba um cálice de vinho.

Merda!

Irrita-se e sai.