
domingo, 16 de agosto de 2009
SABERES E FAZERES

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sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009
d' AS CRIADAS

ENCENAÇÃO DE UARLEN BECKER
COM DIOGO TEIXEIRA, LÁZARO GOMES E MATHEUS BACELLAR
ASSISTENTE DE DIREÇÃO VICTOR FERRAZ
ASSISTENTES DE PRODUÇÃO ANA PAULA CARNEIRO E VANDA MALTEZ
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terça-feira, 9 de dezembro de 2008
ARTE OU ARKETING?
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domingo, 7 de dezembro de 2008
açãointerrogaçãointer
Beckett? Tem o Brecht, tem o Beckett, tem o Piscator, tem o Brook, Peter, porque Grotovski, porque Tchekov, porque Piscator, porque Brecht, os simbolistas, porque o texto? Porque o texto! Porque Brecht, porque Tchekov, porque Antonin, porque Artaud, porque Gordon, porque Beckett, porque Batty, porque a escrita coletiva, porque o textocentrismo, porque Brecht, porque Constantin, porque Ronconi, porque Grotovski, porque Tchekov, porque Artaud, porque Stanislaviski, porque Appia, a pia branca de Appia, porque o Living, porque Brecht, porque Artaud, porque Beckett, porque Ronconi, porque Shakespeare! Shakespeare! Porque o Bem, porque Elisabeth, porque Marlowe, porque Brecht, porque Stanislaviski, porque Appia, porque Craig, porque Gordon. Oh! Gordon! Porque Vilar, porque Roubine, roubou Roubine, arrombou Roubine, o Jean-Jacques, o Brecht, o Artaud, o Antonin, o Living, o Vilar, o Gordon, o Craig, o palco naturalista! Ah o palco naturalista. Bem o palco naturalista! Porque o palco naturalista? Bem a frontal frontalidade do frontispício porque a Igreja, o Soleil, o Soleil, o Soleil, o duque, os Sax, os Sax, os Sax, os Sax, os Sax, os Sax, apud, Meiningen, Shakespeare, o bardo, o dardo, o bardo, o dardo, o bardo, o dardo do bardo, o bardo com o dardo no dedo do dardo do bardo, do Shakespeare, porque Grotovski, porque o Vilar, porque o Piscator, o Piscator, o Piscator, o Piscator, o Piscator, piscou, piscando o Piscator, o ato, o ator do ator, nos quatro, de quatro, atroz, porque Brecht porque Artaud, disso, isso, disso, daquilo, daquele, ele, o Shakespeare, o bardo inglês, porque Tchekov, porque Gordon, o dilema, da ema, da ema, do dilema, da ema, da ema, o dilema, o dilema, o dilema, da ema da ema.
sábado, 6 de dezembro de 2008
O NU MASCULINO NA HISTÓRIA DA FOTOGRAFIA
Do científico ao erótico Sempre que o assunto é o corpo desnudo, no mínimo duas vertentes aquecem uma polêmica tão estranha e contraditória quanto antiga e ultrapassada. Para alguns, nudez significa libertação, uma convivência harmoniosa com a natureza, onde a sexualidade é uma característica inerente à maioria dos seres vivos. Para outros, o corpo nu ainda representa uma ameaça aos padrões morais tradicionais, seja ela espontânea ou representada através das artes.
Nas artes visuais, a nudez passou por momentos de valorização no classicismo e no renascimento, quando milhares de personagens foram esculpidos e pintados sem qualquer vestimenta. Por outro lado, não são poucas as obras que durante os séculos foram alteradas para esconder ou eliminar suas "vergonhas".
Quando a fotografia começou a florescer, entre 1830 e 1840, sua principal função era retratar indivíduos. O que antes era acessível somente aos nobres, tornou-se rapidamente uma mania entre todas as classes sociais. Os fotógrafos perceberam que havia um mercado emergente. Assim, surgiu a comercialização de fotografias que retratavam objetos, casas, ruas, cidades, paisagens e, finalmente, os nus. Para David Leddick, autor do livro The Male Nude (1999), a sociedade machista da época impôs a comercialização exclusiva de fotografias de nus femininos, com fins eróticos disfarçados sob uma ótica artística. Como a maioria dos homens não gostava de se ver nu, também não questionava se alguma mulher poderia admirar a beleza artística contida em um nu masculino. Muito menos se havia homens que pudessem admirá-los dessa forma (e certamente havia!). Na falocracia, o dinheiro representava poder e um homem nu jamais poderia exibir seu status material numa fotografia. Já às mulheres, que diferença fazia estarem nuas ou vestidas numa fotografia, se cabia a elas a função de servir aos falocratas e garantir seus descendentes?
Por todas estas circunstâncias, os primeiros nus masculinos que se têm notícia surgiram apenas em 1872, com fins científicos. Nos Estados Unidos, o britânico Eadweard Muybridge uniu fotografias individuais, captadas separadamente, tornando visíveis as fases da locomoção, utilizando como modelos animais domésticos, além de mulheres e homens nus. Nestas séries, pode-se observar claramente que nenhum modelo masculino aparenta estar perturbado com a situação incomum àquela época. Muito pelo contrário. Também é notável que os modelos adotados provavelmente não tenham sido escolhidos ao acaso, mas dentre aqueles que apresentavam os corpos mais atraentes. Mais tarde, este fato acabou levantando suspeitas de que o trabalho de Muybridge deixava explícitas suas predileções pessoais, o que não causa nenhuma estranheza nos dias atuais. Seus estudos foram publicados somente em 1887 e conquistaram uma comedida respeitabilidade científica, já que os modelos nus, principalmente os masculinos, representavam um escândalo.
A divulgação do escândalo de Muybridge serviu de estímulo a outros artistas, que não buscaram qualquer justificativa científica para fotografar ou utilizar fotografias de nus masculinos. Thomas Eakins, considerado o maior pintor norte-americano do século 19, utilizou os trabalhos de Muybridge na composição de suas pinturas, mas foi forçado a renunciar ao cargo de professor da Academia de Belas Artes da Pensilvânia, por trabalhar com modelos masculinos nus em uma turma mista. Na Itália, os alemães Barão de von Gloeden e seu primo Guglielmo Pluschow fotografaram jovens rapazes simulando cenas da Grécia Antiga. Os modelos aparecem usando turbantes e sandálias, quase sempre expondo naturalmente suas genitálias. Como não tinham objetivo de servir de guia para pinturas, essas fotografias foram consideradas os primeiros nus masculinos com objetivo artístico puro e simples.
É óbvio que as fotografias de von Gloeden e Pluschow venderam muito, principalmente para turistas homens, em sua maioria homossexuais. Era inevitável que o nu artístico, nas mãos de uma sociedade hedonista, não fosse consumido por seu apelo erótico, pois tudo depende do olhar individual de quem o vê. Assim, esses e outros artistas publicaram inúmeros catálogos de nus masculinos que se tornaram um grande negócio até a Primeira Guerra Mundial.
No início do século 20, astros de cinema e da dança foram fotografados nus ou semi-nus sem que tivessem concordado com isso. Rudolph Valentino, Ramon Navarro e Nijinsky despertavam um enorme interesse entre homens e mulheres. Até a Segunda Guerra, a reprodução fotográfica de belos físicos masculinos, não necessariamente nus, se tornou tão comum que o hábito do culto ao corpo cresceu rapidamente. Esse comportamento contribuiu para o surgimento das primeiras revistas destinadas aos fisiculturistas. Porém, a venda destas revistas para homens e mulheres que não freqüentavam academias de ginástica, logo fez com que as fotos se tornassem cada vez mais sensuais e eróticas. Não é difícil imaginar que este novo apelo dos nus ou semi-nus masculinos logo os deixasse sob a mira de governos, igreja e conservadores em geral. É por isso que a partir desse período as revistas de físico tornaram-se mais amenas e os nus masculinos restritos ao comércio ilegal.
A circulação paralela e ilegal do nu artístico masculino perdurou em muitos países até o final da década de 60. Em 1968, a revista americana Grecian Guild Pictorial venceu uma ação na Suprema Corte dos Estados Unidos, que finalmente reconheceu essa modalidade de fotografia como arte. A profusão de revistas explorando o nu masculino, de apelo artístico, erótico ou mesmo pornográfico, cresceu vertiginosamente desde então.
Nas galerias, museus e espaços públicos, a aceitação do nu masculino na fotografia foi ainda mais lenta. Em 1978, uma exposição dedicada ao tema, na Marcuse Pfeifer Gallery, em Nova York, foi praticamente ignorada pelos críticos homens. Eles ainda viam o "nu masculino como um território restrito aos homossexuais e às feministas que queriam ver os homens em situação reduzida e vulnerável". O que mais incomodava os críticos eram os pênis à mostra, esse símbolo mítico do questionável poder masculino, reconhecidamente frágil e em franca decadência. Porém, como afirma David Leddick em seu livro, nesta época a maré já estava contra estes críticos. Robert Mapplethorpe entrou nos anos 80 mostrando fotografias de homens nus, acertando em cheio o gosto popular e obtendo o reconhecimento da crítica internacional. De lá para cá, o nu masculino não causou mais grandes polêmicas nos países desenvolvidos.
Foram necessários séculos de evolução e pelo menos cem anos de fotografias para que o nu masculino voltasse a ser encarado com naturalidade nas artes visuais. Fica a pergunta: será um reconhecimento permanente ou mais uma vez o homem tentará cobrir aquilo que teme admirar?
A Notícia, 7 de outubro de 2001.
sexta-feira, 5 de dezembro de 2008
HOJE

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sexta-feira, 21 de novembro de 2008
CINCO HISTÓRIAS

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CICLO DE LEITURAS DRAMÁTICAS DA UFBA
sexta-feira, 26 de setembro de 2008
PAOLA OPALA

sexta-feira, 8 de agosto de 2008
CADÊ?

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terça-feira, 15 de julho de 2008
PLAY
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quinta-feira, 29 de maio de 2008
O CENTRO DO UNIVERSO

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CRER PRA VER

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quarta-feira, 28 de maio de 2008
IMAGENS DA TERRA DA ALEGRIA

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A CIDADE DOS CARALHOS AMBULANTES

Em qualquer lugar que se vá pode-se escutar de tudo. As pessoas têm opinião e teoria para tudo, de política a medicina, de moda a entretenimento. Aliás nesse último quesito a TV ocupa o topo da cadeia "assuntológica". Salvador, Bahia e Vitória. Tudo a ver. Somente uma cidade alegórica como a nossa poderia abrigar times tão risíveis como Bahia e Vitória. E ainda têm coragem de juntar os dois numa mesma competição! Mas daí talvez resulte uma boa análise, um prato cheio para os sociólogos de plantão. Num acontecimento "desportivo" como esse pode-se ver desde o tráfico de drogas à exploração do trabalho infantil; da prostituição infantil aos atos de incivilidade do povo daqui. Tudo isso debaixo das barbas da polícia! Alguém aí sabe quem é o secretário de (in)segurança pública? Aliás Salvador ficou ainda mais insegura com os 14 potenciais candidatos à sucessão do palácio Thomé de Souza. Veja como Salvador é incrível. Quatorze pessoas querem descascar o abacaxi! Abacaxi cuja casca ficou ainda mais grossa e espinhenta com a administração de João Henrique, o mamulengo de Geddel.
Caminhando sessenta minutos pelas ruas de Salvador, pode-se ver como as pessoas avançam com suas casas pelas calçadas, fazem rampas, constróem escadas mirabolantes num contorcionismo ímpar para acessar o puxadinho do andar de cima. Em muitas ruas você disputa com os carros em movimento e os estacionados nas calçadas; ou disputa com os carros em desabalada correria com as montanhas de lixo e entulho nas calçadas.
Qualquer pessoa é suspeita. Se for preto então, corra!, assim manda nosso ancestral e podre preconceito de cor. Essa a maior das tragédias, um povo ter sido lançado na marginalidade sistemática durante os séculos. O centro da cidade é dos camelôs. DVD e CD pirata são comercializados aos borbotões. Eu apóio. Tem DVD com quatro filmes por apenas 3 reais! Acho terrível disputar um tantinho de chão com as mercadorias. "Ah, mas eles são desempregados, o povo tem de trabalhar", dizem alguns. Concordo também. Mas e o direito de caminhar livremente nas ruas dos outros igualmente trabalhadores?
Somente numa cidade como a nossa pode-se assistir a uma intervenção cômica do prefeito na televisão dizendo, feliz, que se encontrou com o presidente Lula e que o mesmo prometeu que não vai mais interromper o repasse de verbas para as obras e que ele (o prefeito) promete entregar ainda em 2008 a primeira etapa do metrô. Que metrô? Primeira etapa? Ah, entendi, foi apenas uma intervenção cômica de João. Devia ir trabalhar na Porra Total, o pior programa "humorístico" da TV. Engraçado o prefeito aparecer para dizer que vai entregar o metrô no ano eleitoral. Aposto que a inauguração será bem no estilo Odorico Paraguaçu, personagem de Dias Gomes. Aposto também que a inauguração será uma semana antes do peito, digo do pleito municipal.
Ainda bem que o prefeito é evangélico. Ah, talvez seja por isso que tenha crescido tanto o número de templos nos bairros. Cada lojinha agora vira uma igreja evangélica pop. Como disse Dalton Trevisan, "as sete trombetas do apocalispe tocam do lado de minha casa". Só que o som agora é pop. O pop não poupa ninguém. Tomar no cu deve ser pop, por isso que o que mais se ouve nas ruas é isso: vá tomá ni seu cu! É muito cu e muito caralho. Créu combina com Salvador. Lula pretende fazer uma moeda única para circular pelos países da América do Sul. Poderia ser o Créu, como eu vi em um blog. Poderiam testar primeiro em Salvador, a cidade alegórica. Tem tudo a ver créu com tomar no cu. Eis um quadro surrealista: "A cidade dos caralhos ambulantes". Agora vou sair e continuar exercendo o meu auto-sadismo.
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segunda-feira, 26 de maio de 2008
TÉDIO TEDIOSO

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quinta-feira, 22 de maio de 2008
PARTEJANDO

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quarta-feira, 19 de março de 2008
DE 4 NO ATO
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quarta-feira, 12 de março de 2008
Nós vai

sexta-feira, 7 de março de 2008
Salvador, ano 2099

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VIDA. BANDIDA
quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008
CELIBATO E TEMAS PERIFÉRICOS
sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008
Página branca (poema de rima pobre)
terça-feira, 22 de janeiro de 2008
BBB e as bbbesteiras

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sexta-feira, 4 de janeiro de 2008
Conselhos de seu Josefo
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Para refletir durante o novo ano
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sábado, 27 de outubro de 2007
Para uma montagem de "À maneira de Godard"
Como aluno do Módulo VI do curso de Artes Cênicas com habilitação em Direção Teatral da Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia me foi imposta, conforme o currículo, a montagem de uma peça teatral completa, utilizando, evidentemente, todos os conhecimentos que foram transmitidos a mim e aos colegas até aqui. Tivemos a oportunidade de escolher um orientador para essa montagem tendo assim uma base para a realização dos procedimentos cênicos a serem adotados. Além disso, a orientadora Cleise Mendes nos instrumentaliza no que tange aos caminhos da dramaturgia, cujo texto, que não poderia ser nosso, foi de livre escolha.
Assim, após ser orientado a adiar a montagem de “O Balcão”, do francês Jean Genet e optar por engavetar o projeto de montagem de “O rei da vela” de Oswald de Andrade por motivos de tempo para execução do mesmo, decidi montar um texto que vinha paquerando a muito tempo, de um autor por quem sou apaixonado: “À maneira de Godard” do carioca Rubem Fonseca.
O texto, que integra a coletânea intitulada “A confraria dos Espadas”, publicado pela editora Companhia das Letras em 1998, fala basicamente de um casal inteligente e articulado que sofre da mesma fobia: aversão pelos órgãos genitais do sexo oposto. Para vencer essa doença, eles fazem um jogo em que o discurso literário e frio ao extremo é acompanhado por movimentos eróticos. Para contrabalancear, o autor introduz um mestre-de-cerimônias, que praticamente dirige a encenação in loco, dando um tom irônico e iconoclasta e abordando características do próprio teatro, como o ritmo, o tempo cronológico e a ação, comentando inclusive a atitude da platéia.
Esse clima tenso, irônico e distendido, e ao mesmo tempo erótico e cômico é a meu ver o que pode interessar ao público. Esclareço: em tempos politicamente corretos e de extrema falta de privacidade onde somos a todo tempo vigiados por câmeras e programas de televisão investem em observar a vida alheia e o comportamento bizarro de certos indivíduos, observar um casal em um jogo onde o objetivo é atingir os órgãos genitais um do outro e conseqüentemente a penetração e o prazer sexual obviamente interessa a qualquer platéia brasileira acostumada à televisão e sua costumeira invasão da vida alheia.
Importante frisar que o casal em cena não se comunica com o público. Essa função é dada apenas ao mestre-de-cerimônias. Com isso, eleva-se ainda mais no espectador a qualidade de voyeur, de estar olhando pelo buraco da fechadura. Não desejo aqui julgar os méritos da TV ou dos programas que tentam imitar a realidade e vigiar a vida alheia. Longe disso! Creio que interessa também ao público essa “quebra” da convenção teatral a que estamos acostumados, ou seja, esconder o truque, utilizar a quarta parede, não deixar transparecer que uma história está sendo contada por atores, com iluminação artificial dentro de uma sala, a partir de um texto decorado etc. enfim, nos fazer acreditar que aquilo está realmente acontecendo naquele momento, segundo o senso comum e coletivo do que é uma representação teatral. Pelo contrário, o mestre-de-cerimônias logo na primeira fala adverte que todos devem prestar bastante atenção ao que vai ser mostrado e dito, do contrário sairão “no meio do espetáculo”, como ele mesmo diz. A meu ver esse jogo, deixado claro de início que se trata de uma representação conduzida de dentro para fora junto com o erotismo e adentrar na vida alheia de dois portadores de uma fobia mórbida, notadamente urbana, interessa bastante ao público. Vale a pena mencionar que se trata no final das contas de uma história de amor, uma vez que, durante toda a trama, Romeu e Julieta (o casal da história, numa referência clara aos amantes de Verona, na conhecida peça de Shakespeare), se amam. Acontece que aqui o Opositor (aludindo agora à análise actancial), seria a fobia que ambos sofrem que os impede de se unir e consumar seu amor. E histórias de amor o público em todos os tempos gosta e é ávido por ver.
O que me interessa no texto de Fonseca para levá-lo ao palco é que ele contém elementos que me atraem na nossa sociedade moderna e tecnológica: a união do prazer e da morte; a busca incessante por um outro que nos complete; a luta incessante por um orgasmo, que não deixa de ser, segundo os franceses, uma pequena morte. Me interessa também a ironia, o humor fino, o erotismo explícito, a frieza e o discurso claramente filosófico pronunciado pelo mestre-de-cerimônias. Uma outra qualidade que me atraiu no texto do contista brasileiro é o experimentalismo, uma vez que percebemos uma reprodução do estilo do cineasta francês Jean-Luc Godard (erotismo, narrativa lenta e distendida, clima tenso etc.) no teatro. Como isso funcionaria? Como aquelas falas enormes poderiam ser ditas sem tornar a cena maçante e chata? E como reagirá a platéia diante de um jogo erótico onde Julieta masturba Romeu e o mesmo ejacula nas mãos dela? Essas características me atraem a estudar e conduzir os atores numa montagem do texto de Rubem Fonseca.
Sem pretensões, pretendo ser fiel ao autor e seguindo a orientação, não tentar ser maior que ele. Prefiro respeitar sua obra e acatar o aconselhamento de primeiro dividir a obra em unidades, percebendo as linhas de força a partir de uma análise actancial. Deixar claro o quê e como par o entendimento do espectador. Pretendo dividir tais unidades juntamente com o elenco e trabalhar com eles as ações físicas de cada parte inspirando-me em técnicas observadas no método de Stanislávski e esmiuçadas no livro Ator e Método e Eugênio Kusnet. Pretendo de início, com a iluminação, elevar no público o senso da realidade dita pelo mestre-de-cerimônias, de que “estamos num teatro”. Não é nada fixo, mas desejo deixar a luz de serviço acesa em sua primeira fala, mostrando os bastidores e os elementos da sala; somente quando as outras personagens entrarem, trabalharei com a construção da iluminação cênica, buscando imagens inspiradas no realismo fantástico, uma vez que não pretendo, ao menos nesse primeiro momento, tratar a peça de forma fria e realista, como é a primeira impressão que temos ao ler o texto. Procurarei abusar da convenção da teatralidade, da brincadeira e do jogo, deixando o estilo de Godard na estrutura mesmo do texto fonsequiano e tentarei junto com o elenco atingir um ponto de sonho ou pesadelo, através da construção de imagens que remetam a platéia ao subconsciente, a um clima felliniano, digamos assim. Buscarei brincar com o figurino no sentido de construí-lo de maneira realista e até mesmo clássica ao mesmo tempo colocando um elemento que destoe do conjunto para atingir imagens grotescas e bizarras, tão urbanas e tão humanas. Quanto ao cenário... Este será o próprio prédio teatral, seguindo as instruções de Rubem Fonseca, apenas uma cama, algumas roupas espalhadas e um telefone. Imagino a cama ser em forma de uma língua gigante ou de um pênis e dois travesseiros em forma de vagina ou de uma pêra cortada ao meio.
segunda-feira, 8 de outubro de 2007
VINDO E INDO
domingo, 24 de junho de 2007
As virgens tolas e as virgens sábias

sábado, 23 de junho de 2007
No ralo - final
terça-feira, 8 de maio de 2007
ENSAIO SOBRE O TEATRO FEITO NA BAHIA NA ÉPOCA DO IMPÉRIO

Ao estudar superficialmente a história do teatro brasileiro em livros e periódicos, me perguntei sobre a atividade teatral fora das províncias do Rio de Janeiro e São Paulo à época do Império, sob a égide de D. Pedro. Mais precisamente o teatro que se fazia na Bahia. (Acima: Teatro São João)
Em seu livro História do Teatro na Bahia, publicado em 1959 pela Universidade da Bahia, o historiador Afonso Ruy nos informa que durante todo o século XIX foi decisiva a influência do Real Teatro São João para a formação e identidade cultural de Salvador, uma vez que aquele teatro tornou-se aos poucos o centro social da antiga capital brasileira, principalmente por causa das subvenções e auxílios, fazendo com que o Governo Provincial promovesse a vinda de companhias que se exibiam na Corte.
Isso nos mostra que naquela época a posição governamental com respeito ao teatro não era de censuras, suspeitas e proibições. O que me chama a atenção é que, durante as grandes apresentações teatrais e operísticas, existiam os chamados entreatos, que são os pequenos números ou cenas bem curtas geralmente executadas por cantores ou atores cômicos enquanto se fazia a troca de figurinos e de cenários para o mais novo salto da história que estava sendo contada. Também subiam à ribalta cantores e dançarinos de ambos os sexos. Não foram poucas as ocasiões que tais apresentações causaram problemas. Assim, em 1836, o chefe da polícia, desembargador Antônio Simões da Silva achou-se no direito de intervir perante o administrador do teatro, para o mesmo cancelar os entreatos da atriz Joana Castiga, cujo nome real era Januária de Souza Bittencourt. A atriz apresentava a cançoneta brejeira Castiga meu bem, Castiga, que constava de lundus. Afonso Ruy informa-nos que a atriz recebeu o epíteto de Joana Castiga por conta de um número de lundu, onde, juntamente com o marido, assim cantava: Se quiser casar comigo,/ há de ter segredo em tudo, e entrava pelo estribilho Castiga, castiga, seu preto aqui está! Esse trecho se constituía num delírio de aplausos e os chapéus choviam no palco no palco para que Joaninha o castigasse com os pés.
A proibição causou um grande rebuliço no público, que abandonou o teatro em sinal de protesto e não mais voltaram a freqüentá-lo, fazendo com que o empresário responsável pelo projeto cancelasse toda a temporada. O impasse durou, até que mais tarde por volta do mês de outubro daquele mesmo ano, o empresário consultou o novo chefe de polícia, Francisco Gonçalves, sobre a possibilidade de representar lundus no teatro. A resposta foi negativa, pois o chefe de polícia considerava aquelas danças e canções imorais. Com outra insistência, dessa feita para que as apresentações fossem independentes, e não nos entreatos, a resposta foi novamente negativa. E pior: proibiu-se toda e qualquer espécie de dança, sob a alegação de que as executantes sempre excediam seus limites. O impasse veio ao fim com a Revolta Sabinada, que fechou o teatro por mais de quatro meses, até ser abafada com sangue. Mas a história do teatro baiano dessa época não se restringe a lundus e entreatos cômicos. Por exemplo, em 1837, por volta das comemorações do 2 de julho, onde se celebra a independência da Bahia da Coroa Portuguesa, foi levada à cena a peça A restauração da Bahia ou A expulsão dos Holandeses, drama oferecido ao administrador do Teatro São João, conforme dedicatória do próprio autor da peça, Manuel Antônio da Silva. Segundo o historiador Samuel Blake em seu Dicionário Bibliográfico Brasileiro, publicado no Rio de Janeiro pela Tipografia Nacional em 1902. Blake nos informa que a peça tinha como personagens vultos da época, como militares pernambucanos.
No entanto, nessa época, a Bahia se dava ao luxo de criar e manter grupos teatrais estáveis. Um exemplo é o tipógrafo Antônio da Silva Araújo, que, sem jamais sair da Bahia, conseguiu certa notoriedade como ator e organizador de companhias que atuaram tanto na capital quanto no interior do estado. Segundo o historiador Múcio da Paixão em seu livro O teatro no Brasil, publicado em 1936 pela editora Brasília, informa que a Bahia deu ao teatro nacional os mais ilustres artistas. O autor cita um bom número de atores e atrizes, dentre os quais figura Xisto Bahia, que segundo Múcio, era um ator de vibrante talento, inimitável da exteriorização de tipos nacionais. Segundo Artur Azevedo, foi o autor mais nacional que o Brasil já teve.
Em 1849 desembarcou em Salvador o ator João Caetano, estreando a peça a gargalhada, de Jaques Arago. João Caetano, além de grande ator que era, conquistava todas as platéias com sua simpatia, recitando para os mesmos poemas entusiásticos. O ator apresentou em Salvador todo o repertório de sua Companhia. Dentre as peças, o ator representou Otelo, de Shakespeare. O jornal Correio Mercantil da época ressaltou o talento de Caetano: “É um colosso de desmedida altura, que emparelha-se com as montanhas e quase topa com os astros”. Nas comemorações do 2 de julho, João Caetano representou outra peça de seu repertório, dessa vez contando com a presença, na platéia, do General Labatut, lendário guerreiro comandante das lutas pela independência da Bahia. Labatut vinha da França, onde lutara em Marselha e fixara-se na Bahia. Ao final do primeiro ato ouviu-se uma ovação de palmas, não para os artistas, mas em direção ao camarote da ordem nobre, onde estava Labatut, naquela noite de civismo.
O Teatro São João continuou centralizando o que de melhor havia na vida cultural baiana, perecendo após um incêndio, pondo fim a 110 anos de intensa atividade daquele centro de cultura e convívio social. Tal incêndio talvez tenha sido provocado pelo combustível que acendia as lâmpadas que iluminavam tanto o palco quanto a platéia: azeite de peixe. Segundo o Arquivo Público, foi em 1847 que o Governo da Província importou da Europa um candelabro gigantesco para abrilhantar aquelas noites, uma vez que a utilização de gás carbônico só aconteceria a partir de 1864. Em 1857 fundou-se o Conservatório Dramático da Bahia, que reunia no Teatro São João personalidades artísticas para compor textos, músicas e treinar atores e técnicos para a intensa atividade teatral que vicejava em Salvador. Junto com o Conservatório surgiram várias entidades culturais, dentre as quais participaram o ator Xisto Bahia, Luis Tarquínio e o Visconde do Rio Branco. Essa intensa atividade perdurou até por volta de 1954, quando na cidade surgiam diversos prédios teatrais, públicos e particulares e vários grupos amadores. Sob a administração desses contam-se dezesseis casas de espetáculos.
Desse pequeno estudo, tocou-me saber que em meados do século XIX a Bahia foi um dos mais ativos centros culturais do país, sendo a atividade teatral um dos ícones da inteligência baiana e brasileira da época. Não nos esqueçamos que tratava-se de uma sociedade altamente preconceituosa, como a nossa, mas aristocrática, com a eterna luta de classes. Em meio à produção cultural e teatral, explodiam revoluções, piquetes organizados por republicanos e abolicionistas. O Brasil vivia uma época de transição, no fim do túnel enxergava-se a República e o fim da monarquia. Os ideais socialistas também eram vistos de longe. Estava perto a carnificina de Canudos que havia crescido quase como uma pequena nação. Mas, como nossa atual sociedade, nossos antigos pares tentavam criar (e criavam) objetos culturais testemunhando a época em que viviam. Produziam, enfim, em meio aos problemas que os acometia.
Fica a lição dolorosa em saber que com todos os avanços sociais, tecnológicos e econômicos, ou por causa deles e das mudanças que operaram em nossa sociedade, não contamos mais com tal riqueza cultural e teatral, mergulhados que estamos em nossa diversidade de estilos e dependência econômica.
domingo, 29 de abril de 2007
SOBRE FRONTALIDADE E COISAS QUE TAIS
Em laboratórios executados na Sala 5 da Escola de Teatro da UFBA no segundo semestre de 2006, nos foi imposta a prática de exercícios inspirados em livro de autor estadunidense - cujo nome não me lembro agora – cujas teorias (e práticas) nos levariam um maior entendimento acerca da arrumação da cena num palco de convenção à italiana – onde o público está disposto numa posição mais baixa em relação ao palco e totalmente de frente para o mesmo. Aprendemos que esse palco deve ser um pouco mais estreito e mais alto na parte de trás visando à total exposição frente ao espectador.
Foram exercícios inspiradores de total improviso, nos quais o docente nos dava um tema ou uma simples dica e tínhamos que desenvolver uma pequena cena com a presença de atores convidados ou com nós mesmos como dublê de atores. Quase todos os exercícios tinham como prenúncio a ausência de texto e de palavras – mas não de sons – o que dificultava ainda mais. Dificultava mas nos convidava a todos a uma reflexão acerca das possibilidades de criação de uma cena não bem feita e bem acabada, mas coerente com o que tinha sido proposto. Era um convite ao exercício da criatividade em condições mínimas – não quero citar aqui as prerrogativas insalubres da sala -, somente dois atores e uma ação que transcorria sem objetos, figurinos, artifícios de iluminação, música ou som mecânico. No curso das aulas – que também eram algumas vezes cansativas e monótonas, como toda prática que esconde certo mistério e uma nova descoberta de forma artesanal, científica e que necessita certa dose de paciência, erros e mais erros para conseguir um acerto ou aprender uma lição – foi-nos permitido utilizar algum texto.
Tocou-me particularmente a criação de áreas no palco e a quebra das mesmas no sentido de ultrapassar fronteiras. Isso me fez entender, por exemplo, a possibilidade de criação de cenas simultâneas com a ausência de cenários; fazer o público perceber que num determinado espaço do palco instaurou-se um ambiente, instaurou-se uma cena dentro do todo. E que com o trabalho conjunto do diretor e do ator – e especialmente com o virtuosismo desse último – essas áreas podem ficar bem claras e totalmente à vista das pessoas. Outro quesito foi a aparição de determinadas personagens e a importância dessas aparições para o espetáculo. Esse estudo fora feito a partir do estudo do cérebro humano e do direcionamento do olhar. Assim, a primeira personagem deve entrar – se isso for necessário, se já não estiver em cena, é apenas uma convenção – pelo oposto ao que o público adentrou na sala. Não sei se foi proposital, creio que sim, mas esse exercício foi feito numa segunda feira e no sábado seguinte fui assistir a um espetáculo realista que estava em cartaz na cidade. Entramos na sala pelo lado esquerdo e a peça começou com as personagens entrando pela direita. Entendi muito bem como eles se tornam estranhos a nós e não um de nós entrando pelo lado oposto. Tentei fazer isso em minha cena de final de semestre aplicando também as técnicas das áreas de importância e delimitação de fronteiras. Hoje consigo perceber o efeito disso em encenações bem intencionadas.
Aqueles laboratórios me foram utilíssimos à medida que me fizeram entender que pôr um ator em cena não é apenas um apelo estético, mas a prática de uma ciência lapidada pelos grandes mestres do fazer teatral.
quinta-feira, 5 de abril de 2007
De quando em vez
E tenho a clara sensação de estar bem morto.
Isso é muito bom:
daqui posso ver melhor os vivos
e a terrível beleza
do mundo encharcado de dor e medo.
E assim percebo que minha morte
tão eventual
não passa um sentido coletivo.
Não sei se de medo.
Não sei se de dor.
domingo, 25 de março de 2007
NO RALO - 4
domingo, 11 de março de 2007
NO RALO - 3
domingo, 4 de março de 2007
NO RALO - 2
sexta-feira, 2 de março de 2007
NO RALO - 1
quarta-feira, 21 de fevereiro de 2007
COMOS
quinta-feira, 15 de fevereiro de 2007
INCAPACIDADE MENTAL

Mas também penso que a mesma histeria e comoção poderia existir em outros momentos, tão terríveis quanto o do garoto do Rio de Janeiro. Não preciso citar aqui atos criminosos perpetrados pelo Governo, pelos políticos e por nós mesmos diariamente, acostumados que estamos com tanta miséria e infâmia que ficamos aturdidos e nos tornamos incapazes mentalmente, de escolher clamar por esta ou aquela vítima do sistema que é, de fato, um "rolo repressor", como dizia a saudosa Elis Regina.
segunda-feira, 12 de fevereiro de 2007
HORA DA FOME

Vem aquela hora da fome. A fome dos instintos, das coisas mais precárias que evoluem dentro de mim e dos seres que me cercam. Um dia haverá em que essa fome se tornará tão grande e habitará aquilo que é mais universal e transcendente.
Vem a hora e agora já é em que todas as fomes se tornarão qualquer coisa sem importância, disfarçadas de uma individual força explosiva que implode para dentro, para bem fundo de cada um de nós.
sexta-feira, 9 de fevereiro de 2007
quinta-feira, 8 de fevereiro de 2007
...das coisas primeiras

12 DIAS EM SODOMA

João - Nada disso. Hoje quem conta a história sou eu. Eu! Eu sei de tudo. E mais um pouco. Eu sim, sou esperto, muito esperto. Cresci aqui, entre montes de prédios, montes de carros, fumaça, gritos, corre-corre, buzinas, enfim, tudo o que está contido numa cidade grande e com pessoas civilizadas. Podem me chamar simplesmente de M. E eu quero que esta seja uma história excitante. Lembro de meu padrasto, que era cristão, contando para mim histórias sobre as cidades de Sodoma e Gomorra. Sodoma e Gomorra. Onde tudo era permitido, terra sem lei. Crimes, roubos, sodomia. E ele dizia que nós vivemos numa Sodoma. E eu achei aquilo incrível, nós vivemos numa Sodoma. Nós vivemos numa Sodoma.
João - Estão vendo essa lojinha aqui atrás? Pois é. Eu escolhi este local para vender café. Essa é uma lojinha que vende roupa pra gente gorda. Mas eles dizem que são roupas especiais para pessoas especiais, pode?
João - Aqui eles me verão mais rápido. Pois um dia eu estava botando café na garrafa, e o café estava tão quente, eu estava com muita pressa, e o café tão quente, e eu com muita pressa e o café tão quente e eu com muita pressa e o café acabou derramando e queimou minhas mãos. E com o susto e a dor eu deixei cair a garrafa de café, que se espatifou no chão. Eu ainda corri para tentar pagá-la, mas só consegui pegar um caco do vidro que revestia internamente a garrafa térmica e me cortei. (Um tempo.) Pela primeira vez eu vi meu próprio sangue. O sangue: A vida. Instantaneamente lembrei-me da morte. Lembrei-me do Ivan e seus cabelinhos loiros. Tinha apenas seis anos, o Ivan e seus cabelinhos loiros. Tinha apenas seis anos, o Ivan. Brincava um pouco distante de sua casa com um carrinho de garrafinha plástica cheia de terra.
João - Então o homem veio e lhe ofereceu quatro reais para o pobre Ivan ajudá-lo a ir acender velas para São Jorge. Caminharam por quase uma hora e na beira de uma praia deserta, o homem tentou beijar o menino, que resistiu. Ele tentou mais uma vez, o menino relutou, não permitiu, então o tal homem pegou uma pedra do mar, azul, linda, e se viu obrigado a bater na cabeçinha do Ivan, que desfaleceu. Então o homem... (Gesto de abaixar as calças. Pára). É, isso mesmo, ele fez. Em seguida apertou com bastante força o... (Põe as mãos no próprio pescoço.) Isso mesmo. Foi fácil apertar aquele pobre pescoço fino e macio. Depois enterrou o corpinho do pobre Ivan na areia. Dias depois, turistas falando alemão, francês e Inglês sentiram um forte cheiro e chamaram a polícia. E o resto... Bem, o resto é fácil imaginar.
João - A velhinha do cento e um quando viu a notícia pela TV botou uma mão na testa, outra no peito e falou. “Misericódia, piedade senhor, é o fim do mundo, onde nós vamos parar”? Que maldade fazer isso com uma criancinha!
João - Eu pergunto: E se fosse com um adulto, seria menos maldade?
João - O homem lembrou que já era tarde, noite avançada, chegaria na hora exata que seu padrasto estaria lendo em voz alta as Escrituras Sagradas e ele não admite interrupções. O homem com certeza apanharia do padrasto. Com vinte e um anos de idade.
João - O velhinho de cento e um falou para a esposa, a velhinha do cento e um: “Minha opinião todo mundo já sabe, era cortar o pênis e os polegar e dar tudo pros cachorro comer, depois meter bala no safado que fez isso com o pobre menino.”
João - Tão ingênuo, o velhinho do cento e um. Imagine se a nossa República iria cometer esse abuso, esse acinte contra os direitos humanos! República e leis e sistemas que ele próprio, o velhinho do cento e um ajudou a criar! E reclama de quê? O pai do menino Ivan, deu no rádio, jornal e TV, o pai do Ivan se entregou a bebida e todas as noites bate com a cabeça na parede, tentando dormir e esquecer a imagem do filho, no dia do reconhecimento. A hora em que o pai desesperado saiu do IML foi flagrada pelas lentes das câmeras dos telejornais, todos correram pra ver, e acharam absurdo, mas no outro dia esqueceram. Faço questão de lembrar.
João - A empregada dos velhinhos do cento e um disse: Isso acontece com quem não tem Jesus no coração, vai ver ele tava com o Diabo no corpo.
João - Com o diabo no corpo ou não, aquele homem era amante de literatura e naqueles dias lia lindos poemas e ouvia lindas canções. Recitava baixinho o poema Auto do Frade do João Cabral:
Eu sei que no fim de tudo
Um poço cego me fita.
Difícil é pensar nele
Neste passeio de um dia,
Neste passeio sem volta
(meu bilhete é só de ida)
Mas, por estreita que seja,
Dela posso ver o dia,
Dia Recife e Nordeste
Gramática e Geometria,
De beira-mar e Sertão
Onde minha vida um dia.
João - Era o quinto dia. Após a morte, o jovem rapaz saiu com alguns colegas para uma higiene mental, foi a uma boate. Pela segunda vez experimentou cocaína. Cheirou bastante, como também cheirou o pescoço de duas moças ao mesmo tempo atrás das árvores na boate, curtiu muito, ele também era homem, ele sabia das coisas, sabia aproveitar a vida, escornado sobre um vaso sanitário do banheiro feminino, ele viu o sol nascer, e foi embora para casa, perdido dos colegas de boate, cheirando a álcool e sexo animal. Na rua deserta, um menino caminhava sozinho, indo pra escola, segurando numa mão os livros sebentos e na outra um saquinho desses de supermercado com um pão e duas bananas, a merenda do pobre coitado. O rapaz enfiou uma das mãos no bolso da calça, ou enfiou as duas, eu não lembro bem, e sacudiu algumas moedinhas. A criança olhou e sorriu ternamente.
(Apenas com gestos: aproxima-se da criança, acena, mostra as moedas, insiste, chama o menino. Somente com gestos: Tenta beijá-lo, a criança resiste, aplica-lhe um soco com bastante força, a criança cai desfalecida.).
João - Depois de tudo consumado, voltou para casa e jogou-se na cama. Eu não me recordo muito bem, teria ele demorado a dormir? Agora lembro, acordou e já era noite. Ainda lépido e naturalmente foi até a área de serviço, botou o facão do padrasto numa sacola, retornou ao local onde estava o corpo, agora já era o corpo do garoto, que ainda segurava em definitivo os livros. Agarrado ao conhecimento e à sabedoria.
João - Saiu nos jornais, na televisão, deu no rádio: Criança estuprada, estrangulada, teve a cabeça decepada por maníaco.
João - E ele foi ao enterro. (Canta uma música própria desse evento.) Olhou a face desolada da mãe do garoto. Uma velhinha lhe oferecia chá, provavelmente... Não consigo lembrar do cheiro, apenas do caixão fechado. Dizem que a mãe, dona Firmina de Jesus, viu o filho pela TV, a identidade nas mãos de um repórter sanguinário.
João - O balconista de um bar, limpando seu velho balcão, revoltado, disse isso é um absurdo. Que mundo é esse? Um homem que tomava sua cervejinha diária berrou que tem que caçar e matar o filho da puta que fez isso. Nem deu ouvidos ao rapaz que tentava lhe vender uma porção de amendoim cozido como tira-gosto. O velhinho do cento e um disse todo mundo já sabe minha opinião, devia pegar esse marginal, fazer a mesma coisa com ele, só que com um cabo de vassoura, depois arrancar os olhos dele e jogar ele numa jaula com leões, se ele conseguir escapar, ele tá livre. A empregada, assistindo o anúncio da novela, disse eu entrego tudo a Jesus, e sorriu quando o galã beijou a atriz principal.
João – Estamos no nono dia! Os jornais e telejornais esqueceram rapidinho as outras notícias, pois o maníaco, o monstro rendia mais, muito mais. Monstro!, gritava a capa da revista. Monstro a solta!, berrava a capa da outra. Maníaco pelas ruas!, alardeava a terceira. Quem conseguiria vender mais? O apresentador do telejornal da nação franzia as sobrancelhas e na outra notícia, logo em seguida, sorria ternamente. O maníaco, o monstro, sentado num banco de ônibus, via flashes de seus crimes. E sentiu uma vontade carnal.
João – Décimo primeiro dia. Passou tão rápido, não? Ele estava no quarto de um garoto e uma garota de programa, sua mesada. O rapaz apenas estudava, dali há dois anos seria médico, um excelente ginecologista como o pai, era o sonho da mãe, mas naquele momento ele se entregava aos saborosos prazeres da carne entre um homem e uma mulher. Acariciava o piercing no umbigo dela, que seria uma futura jornalista. Mas foi interrompido pelo padrasto, sempre ele, a tirar-lhe os momentos de prazer. O coroa reclamava do som alto.
- Porra coroa, vai dormir m ais cedo, porra, me deixa em paz, botei o som alto pra você não escutar nossa conversa.
João – Para não ouvir os gemidos, deveria ter dito. A mãe fechou portas e janelas para os vizinhos. Mandou o rapaz e a moça embora, que só cobraram a metade do combinado. Ele com seu piercing no pênis. Sua mãe lhe mandou ter calma. Ele teve calma. Desculpou-se, beijou a mãe, cujos olhos se encheram de lágrimas. O padrasto deu as costas. As costas. E sentou-se no sofá. De costas. E foi ver TV. Sempre a TV!
João – O padrasto era um homem bom. Tinha três casas que ele alugava e que lhe davam certa segurança financeira, mas gostava de trabalhar. Um homem só é útil para a sociedade quando trabalha, dizia ele. Desligou a TV e foi ler a Bíblia. Trabalhava como motorista de ônibus, aturando o barulho do motor e aturando gente. Homem calvo e baixinho cumprimentava ternamente as pessoas e todas as semanas presenteava a mulher com flores. O rapaz usou um facão. Mas não conseguiu decepar a cabeça daquele cristão, ficou zonzo quando viu o sangue espirrar. A cabeça pendeu do lado direito do corpo, a mãe vinha do quarto, assustada que ficou com o barulho seco e abafado. Sua camisola tinha flores bordadas com linha azul e rosa. Não deu tempo sequer de abrir a porta e fugir, gritar, pedir socorro. Foi atingida pelo jarro com flores já murchas que o marido lhe presenteara.
João – Olhou-se no espelho, ajeitou os cabelos. Desceu pelo elevador mesmo, os pés deixando pegadas de sangue. Levou consigo a TV, a polícia pensaria que foi um assalto, mas no fundo ele queria mesmo ser pego. Esbarrou com o velhinho do cento e um que disse meu filho, não carregue tanto peso, senão vai ficar com problemas de coluna, como esse velho aqui. Ah, tão ingênuo o velhinho do cento e um...
João – Jogou a TV num monte de lixo na esquina, as pessoas desenvolvidas das cidades desenvolvidas jogam seus dejetos nas ruas. Foi dormir num hotel barato. Na ficha assinou Mônica, mas o atendente nem olhou.
João – Décimo segundo dia. Acordou bem cedo. Doze dias em Sodoma. Estava tudo planejado. Voltou para casa e pisou os pés apenas na garagem. Ninguém o viu entrar. O carrinho estava todo enfeitado. (Um tempo.) Enchi a última garrafa de café, tudo seria nos mínimos detalhes. O café estava muito quente e eu estava com pressa. O café acabou derramando e queimou minhas mãos. Com o susto e a dor eu deixei cair a velha garrafa que se espatifou e eu acabei me cortando e vi meu próprio sangue.
(Um tempo. Assustado, ele olha para os lados. Vozes o perturbam. Tenta atender aos chamados. Pára. Pausa.)
João – Saí rapidamente dali. O ponto tinha sido escolhido. Em frente a uma lojinha que vende roupas para pessoas gordas. Aquelas criancinhas eu mandei para o céu, para junto de Deus, para que elas não sofram como nós sofremos. Eu bebi o sangue delas para ficar jovem e bonito como elas. O vizinho que passeia bem cedo com seu cachorro me viu saindo da garagem. Sorri para ele e ele correu. Foi chamar a polícia. Não sabem da terça metade. Eu vou confessar tudo, só estou esperando por eles. (Olha para longe.) Não disse? Aí vêm eles, esses homens da Lei! O filme que eu mais gosto é “Sansão e Dalila”, porque conta a história verdadeira de um homem que perdeu toda a sua força e depois se recuperou. Já sinto saudades de minha mãe, de minha casa, de ver o movimento. Eu gosto de me disfarçar, me disfarcei assim. Foram doze dias aqui em Sodoma.
“E, reduzindo a cinzas as cidades de Sodoma e Gomorra, Ele as condenou, estabelecendo para as pessoas ímpias um modelo das coisas que hão de acontecer.”
(Faz uma imagem como de oração, a imagem transforma-se num policial que o algema e o leva.)
Em algum lugar do passado eu me perdi. Só não lembro quando.
João – Eu sou maluco. Ninguém vai gostar dessa história, ninguém vai querer ler uma história de terror como essa. Ainda mais quando eu disser que essa foi uma história real que acontecer lá no Brasil, digo, aqui no Brasil! Vê se pode. Um escritor famoso como eu representando a própria história que escreveu. E chega de histórias de terror. Vou escrever uma história edificante, uma história para crianças, um conto infantil, um Andersen da vida.
Capítulo primeiro: uma criança e um gato. A criança atira um pau no gato!
FIM
quarta-feira, 7 de fevereiro de 2007
AI QUE VIDA BOA!

Ontem pensei assim: que vida boa! com a ironia que me é peculiar. A minha frieza e medo disfarçados de arrogância me remetem a profundo abismos de desesperos internos. Perto do abismo. Choro sempre diante do espelho. Escondido que fico no banheiro. Ou quando não há ninguém em casa. Fecho os olhos e caio dentro de mim. Acordo cedo e ouço o silêncio da manhã. realmente essa vida é uma merda. Algumas pitadas de momentos bons, satisfações e pequenos gozos. Mas o resto é ilusão e o vento que passa e leva tudo para bem longe.
segunda-feira, 22 de janeiro de 2007
OPUS CIT

Põe a mesa do jantar. Em silêncio. Bebe um gole de vinho. Sai. Retorna. Enquanto come fala.
Mas, no entanto... Tem o Tchekov! Um... O Artaud. Porque Beckett, porque Artaud, porque Beckett, porque Brecht, porque Artaud, porque Staniláviski. E Brecht? Brecht é Brecht! Brecht... é Brecht! Como O grande. Nada. O grande Constantin... porque tem também o Piscator, mas tem os Sax, os Sax, os Sax, os Sax, os Sax os Sax, os Sax, os Sax, os Sax, os Sax Meiningen, tem o Brook, tem o Antonin Artaud, tem o Piscator. Ah, sim, porque Tchekov, porque Beckett tem o Beckett, tem o Artaud, tem o Piscator, tem o Becket, porque Tchekov, porque Becket, porque Tchekov, porque Artaud, porque Grotovski.
Beckett? Tem o Brecht, tem o Beckett, tem o Piscator, tem o Brook, Peter, porque Grotovski, porque Tchekov, porque Piscator, porque Brecht, os simbolistas, porque o texto? Porque o texto! Porque Brecht, porque Tchekov, porque Antonin, porque Artaud, porque Gordon, porque Beckett, porque Batty, porque a escrita coletiva, porque o textocentrismo, porque Brecht, porque Constantin, porque Ronconi, porque Grotovski, porque Tchekov, porque Artaud, porque Stanislaviski, porque Appia, a pia branca de Appia, porque o Living, porque Brecht, porque Artaud, porque Beckett, porque Ronconi, porque Shakespeare! Shakespeare! Porque o Bem, porque Elisabeth, porque Marlowe, porque Brecht, porque Stanislaviski, porque Appia, porque Craig, porque Gordon. Oh! Gordon! Porque Vilar, porque Roubine, roubou Roubine, arrombou Roubine, o Jean-Jacques, o Brecht, o Artaud, o Antonin, o Living, o Vilar, o Gordon, o Craig, o palco naturalista! Ah o palco naturalista. Bem o palco naturalista! Porque o palco naturalista? Bem a frontal frontalidade do frontispício porque a Igreja, o Soleil, o Soleil, o Soleil, o duque, os Sax, os Sax, os Sax, os Sax, os Sax, os Sax, apud, Meiningen, Shakespeare, o bardo, o dardo, o bardo, o dardo, o bardo, o dardo do bardo, o bardo com o dardo no dedo do dardo do bardo, do Shakespeare, porque Grotovski, porque o Vilar, porque o Piscator, o Piscator, o Piscator, o Piscator, o Piscator, piscou, piscando o Piscator, o ato, o ator do ator, nos quatro, de quatro, atroz, porque Brecht porque Artaud, disso, isso, disso, daquilo, daquele, ele, o Shakespeare, o bardo inglês, porque Tchekov, porque Gordon, o dilema, da ema, da ema, do dilema, da ema, da ema, o dilema, o dilema, o dilema, da ema da ema.
A expressão corporal? A expressão corporal! A luz, o corpus, o intérprete, porque o ator, a rota, o ator, a rota, o ator, a rota, o ator, o ator, o ator, porque Cristo, porque a Bíblia, porque o absurdo, o absurdo, do absurdo, do absurdo, porque Tchekov, porque Tchekov, porque Brecht, porque Beckett, porque Becket, Samuel, el, el, el, el, et, et, et al, autor entidade, autor pessoal, autor entidade, autor pessoal, autor entidade, autor pessoal, autor entidade, autor pessoal, apud, apud, apud, apud, Brecht apud, Grotovski apud, Antonin apud, porque Beckett, ibidem, ibidem, ibidem, supra, porque Tchekov, porque Tchekov, porque Brecht, porque Artaud, porque exempli gratia, citado por loco citato, porque Brecht, porque Tchekov, porque Constantin, porque Ronconi, porque Vilar, porque Avignon, porque sine loco, porque sine nomine porque o épico, porque Piscator, porque Aristóteles, porque a regra, das uníssonas unidades, porque a tragédia, porque a comédia, porque os gregos, porque a comédia, porque Aristófanes, porque Plauto, porque Platão, a comédia, a nova comédia nova, o século de ouro, a regra das unidades uníssonas, porque Aristóteles porque a ação, o tempo, o lugar, a cidade, a catártica catarse, o vômito, a música, a dança, o espetáculo, o coro, o coro do coturno do coro, a túnica única do coro, de Brecht, de Artaud, de Constantin, de Beckett, de Peter, de Brook, a relação frontal, mutatis mutandis, a cena, a cena, a cena realista, naturalista, naturalista-realista, realista-naturalista, moderna, caverna, caverna moderna, a crueldade, a crueldade teatro pobre, paupérrimo, paupérrimo!, Jarry, já ri de tudo que vi, de Jarry ao jarro ao jarro já ri Jarry da Dorotéia, da iluminação, do expressionismo, porque o impressionismo, o expressionismo mutatis mutandis, os Sax, os Sax, os Sax, os Sax a teatralidade, a teatralidade dos teatros modernos de Shakespeare, do dardo do barro, porque Shakespeare, porque Marlowe, porque Ben, Ben Johnson, porque Volpone, porque a maquiagem, porque a encenação, a encenação oriental, ocidental, ocidental ou oriental? Ih, complicada a complicação do clímax do conflito da crise... E a catársis, oh! A catársis do bioritmo da biomecânica da biodinâmica do arquétipo do arconte e do arlequim com sua arlequinada. Vicentino, Vicente, Gil Vicente, vil Vicente. Viu Vicente? Vá pro inferno! Ui, Arturo! Porque Strehler porque Vilar, porque Genet deu no Jean do Genet. Porque Decreux deu cru no cu da estátua de Decreux que enfiou no decreux do Arrabal. O épico epílogo, o épico epílogo, o epílogo do monólogo, o monólogo do epílogo, porque a revista do teatro do teatro de revista da revista de teatro do teatro de revista, da revista de teatro e do teatro de revista, resista, vista, insista na verossimilhança do deus ex ex ex ex ex ex ex ex ex machina, machina machina do da da da da da da da da dadaísmo porque Brecht, porque Artaud importa teatro, ato, onde se vê as gentes de Constantin, porque Brecht, porque Artaud, porque realismo, ismo, ismo, ismo, ismo, ismo, porque a cena, acena, a cena acena, acerca da cena naturalismo, ismo, ismo, ismo. Porque há o urdimento da vara do vão wagneriano e da vomitoria e da farsa farsesca da falha trágica tragicômica do fandango e do fantoche da estrutura dramática. Meyerhold? Meyerhold porque Meyerhold! Passim, et elli, et el, opus, profundus opus, aproximadamente, porque o boulevard, na boca da cena do boulevard, metendo a mão na vara, no boneco da vara, no poço da orquestra, de Brecht, porque Ronconi, porque Artaud, porque Brook, Peter, e a memória emocional, o episódio do drama moderno de ensaio de gabinete porque o enredo, o enredo, o enredo, o marxismo, o realismo socialista, a verdade poética da Poética porque o ditirambo, a imitação, porque o reconhecimento, porque a peripécia porque a hamartia, a harmatia a hamartía e a harmátia a dicção, porque e melopéia da tragédia clássica, porque Ésquilo, da tragédia de vingança, porque Eurípides, porque a tragédia neoclássica, porque Sófocles, porque Molière, do romantismo, no distanciamento, no distante distanciamento da distância distanciada de Constantin, da criação coletiva, da direção, porque a direção, a encenação, a direção da encenação, do absurdo da crítica formalista, do coringa coringado, coringando coringuísticamente o Boal, Augusto. Lembro, o augusto Augusto porque o palco nu, porque o palco giratório, porque o happening, porque Brecht, porque Artaud, porque Constantin, porque o corral, porque a espada da capa da espada do espadachim, da fé cênica da performance performática e da merda.
Sem querer derruba um cálice de vinho.
Merda!
Irrita-se e sai.









